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Ferro da carne: desnecessário. LER
Devemos parar de comer carne? LER
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Parar de comer carne pode salvar a Amazônia? LER

 

Parar de comer carne pode mudar a realidade dos animais criados para alimentação?
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Empresas americanas produtoras de leite estão querendo processar os fabricantes de leite de soja, por eles venderem o produto em embalagem semelhante e com o nome "Leite". Apesar de especificarem que o produto não é de orígem animal, os distribuidores do leite de vaca querem que os concorrentes do mercado vegetariano mudem o nome do produto, pois consideram a concorrência desleal.

Isso é ponto pra os defensores dos animais e para os que defendem a dieta vegetariana (onde os indivíduos não comem carne, mas bebem leite e consomem ovos) e vegan (não consomem nenhum produto de orígem animal), pois se a indústria de lacticínios está se preocupando é porque estão perdendo consumidores.

A produção de leite também implica em crueldade com os animais. Milhares de bezerros são mortos, criados em gaiolas minúsculas para que não desenvolvam nem enrijeçam músculos, a fim de serem abatidos e vendidos como vitela, que é considerada uma carne nobre por sua maciez. Pra que a vaca possa produzir o leite que bebemos, acabamos por ser cúmplices da produção de vitela e, muitas vezes, do abate indiscriminado de bezerros.

Em 1999, atraves de uma denúncia, foram encontrados dezenas de bezerros abatidos a tiros numa vala, onde alguns foram enterrados ainda vivos, numa fazenda do Texas. No Brasil não é melhor, pois as denúncias referentes a abatedouros são o que há de mais grotesco e desumano.
Lembremos também, que alguns bezerros são vendidos para rodeios, sofrendo fraturas de coluna, patas, hemorragias e quase sempre abatidos de forma cruel.

Atualmente uma vaca produz 10 vezes mais leite do que a sua natureza permitiria. São tratadas como máquinas, não tomam sol, nao amamentam seus filhotes, recebem doses de hormônios, sofrem dor (basta ver o tamanho das tetas de uma vaca leiteira) e algumas sofrem até infecções. E quando estão exaustas, são abatidas. Muitos animais doentes, que mal podem se levantar, são arrastados para os matadouros assim mesmo, para não haver desperdício.

Bezerros confinados para serem consumidos como "vitela"

O leite de soja ou mesmo o de arroz, têm um gosto estranho no início, mas logo se acostuma. É até mais saboroso que o leite de origem animal. Após algum tempo longe da lactose, que dificulta a digestão, nos sentimos muito melhor. No Brasil ainda não se vende leite de vaca sem lactose, mas nos EUA já se pode escolher comprar o leite sem essa substância, uma vez que algumas pessoas apresentam reações alérgicas ao consumí-la, assim como problemas gastro- intestinais.

Nos EUA e na Inglaterra o número de vegetarianos está crescendo, principalmente entre os adolescentes.O consumo de carne de vitela caiu até 70%.Os supermercados incluíram produtos vegetarianos e vegan em suas prateleiras. A tendência de se adotar uma dieta sem a exploração de animais vem crescendo além das expectativas, também pelo fato de ser mais saudável. É comum encontrarmos pessoas que seguem a dieta vegan por indicação médica no controle de obesidade e pressão alta, uma vez que o colesterol diminui rapidamente quando nao se consome produtos de orígem animal.

Sob o ponto de vista ético, também podemos usar um dado estatístico: pra quem acha que nao adianta parar de comer carne, saiba que cada ser humano vegetariano, salva 35 animais por ano de viverem amontoados em gaiolas, de serem mutilados, drogados, manuseados inapropriadamente pelos humanos e do abate cruento, fato que muitos preferem ignorar ou fantasiar afirmando: "animais mortos para alimentação são abatidos sem sofrimento".

Se um único indivíduo para de comer carne, ao longo de 20 anos, é responsável por ter poupado 700 animais. Numa casa com 6 pessoas vegetarianas, seriam 4200 animais salvos, em 20 anos.

Grandes mudanças começam com atitudes individuais. Para os defensores dos animais, ser vegetariano é a maior contribuição que se pode dar pelo fim do sofrimento deles.

Veja abaixo a origem de muitos alimentos que hoje fazem parte provavelmente de sua vida:


Bife, a origem

Vitela, a fazenda

Porcos, a fazenda

Ovelhas, a fazenda

Frangos, a granja

Ovos, a granja

Transporte, da produção até você

O processo

Dor e tortura seguida de morte

Fontes: PETA, FARM, Farm Sanctuary, Factory Farming.

Perguntas frequentes
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Link original: http://sejavegetariano.vilabol.uol.com.br/vegetarianismoradical.html


P - Se animais matam outros animais para se alimentar, porque deveríamos agir de forma diferente?
R - Os animais que matam para se alimentar não poderiam sobreviver se agissem de outra forma. Este não é o nosso caso. Nós, humanos, na verdade nos tornamos mais saudáveis quando adotamos uma dieta vegetariana. Além disso, se nós não costumamos nos comportar como animais, por que deveríamos abrir uma exceção para este caso?

P - Os seres humanos não têm que comer carne para permanecer saudáveis?
R - O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e a Associação Dietética Americana, dois órgãos que são referência mundial em questões alimentares, endossaram dietas vegetarianas. Pesquisas demonstraram também que vegetarianos possuem sistemas imunológicos mais fortes, e que os consumidores de carne têm duas vezes mais chances de morrer de doenças cardíacas e probabilidades 60% maiores de morrer de câncer. O consumo de carne, leite e seus derivados tem sido ainda relacionado a diversas outras doenças, como diabetes, artrite e osteoporose.

P - Os vegetarianos ingerem proteína suficiente?
Em boa parte dos casos, o problema é ingerir proteína em demasia, não em quantidade insuficiente. Muitos dos que consomem produtos de origem animal ingerem três ou quatro vezes mais proteínas do que necessitam. Há uma enorme variedade de alimentos vegetarianos ricos em proteínas, como massas, pães, feijões, ervilhas, milho e até mesmo cogumelos. Quase todos os alimentos contêm proteína. É quase impossível não obter proteína suficiente em uma dieta que possua a quantidade de calorias adequada, mesmo que não se faça uma escolha mais cuidadosa dos alimentos. Por outro lado, proteína em demasia é uma das principais causas conhecidas de osteoporose e doenças renais.

P - Comer carne é natural. Tem sido assim por milhares de anos. Nós evoluímos desta maneira.
R - Na verdade, nós não evoluímos para comer carne. Animais carnívoros possuem dentes caninos pontiagudos, garras e um trato digestivo curto. Os seres humanos, em seu atual estágio de evolução, não apresentam garras nem caninos desenvolvidos. Temos molares lisos e um trato digestivo longo, muito mais adequado a uma dieta de vegetais, grãos e frutas. Comer carne é perigoso para nossa saúde; contribui para o aparecimento de doenças cardíacas, câncer e uma infinidade de outras doenças.

P - Se todos passassem a comer apenas alimentos de origem vegetal, haveria bastante comida para todos?
R - Boa parte da safra mundial de grãos é na verdade destinada a alimentar o gado. Desta forma, se todos se tornassem vegetarianos, haveria muito maior abundância de alimentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, 80% do milho produzido são usados na alimentação dos animais criados para consumo. Em todo o mundo, o gado consome uma quantidade de alimento equivalente às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas - mais do que toda a população humana do planeta.

P - Os fazendeiros tratam seus animais muito bem, ou eles não produziriam tanto leite e ovos.
R - Os animais nas fazendas não ganham peso, produzem leite e colocam ovos porque se sentem confortáveis, contentes, ou são bem tratados, mas, na verdade, porque foram manipulados especialmente para fazer estas coisas, com drogas, hormônios e técnicas de criação e seleção genética. Além disso, os animais criados para produção de alimentos, mesmo vacas leiteiras e galinhas poedeiras, hoje são abatidos em idade extremamente jovem, antes que as doenças e a miséria os dizimem. É mais lucrativo para os fazendeiros absorver as perdas ocasionadas por mortes e doenças do que manter os animais em condições humanitárias.

P - Vegetarianismo é uma questão de escolha pessoal. Não tente forçar os outros a fazer esta escolha.
R - De um ponto de vista moral, as ações que prejudicam outros não são questões de escolha pessoal. O assassinato, o estupro, o abuso de crianças e a crueldade para com os animais são atitudes imorais. Nossa sociedade incentiva hoje o hábito de comer carne e a crueldade nas unidades de criação de animais, mas a história nos ensina que esta mesma sociedade um dia encorajou a escravidão, o trabalho infantil e muitas outras práticas agora universalmente reconhecidas como imorais.

P - Eu conheço um vegetariano que não é saudável.
R - Há, claro, vegetarianos que não são saudáveis. Assim como há comedores de carne na mesma situação. Mas o fato é que as pesquisam comprovam que dietas vegetarianas bem variadas e de baixo teor de gordura criam melhores condições para uma vida mais longa e saudável.

P - Eu não matei o animal.
R - Não, mas financiou sua morte, tornando-se responsável direto por ela. Sempre que você compra carne, assina um atestado de culpa: a morte daquele animal foi para seu usufruto e você pagou por ela.

A Bíblia preconiza o vegetarianismo
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Link original: http://www.anima.org.ar/libertacao/animais/a-biblia-preconiza-o-vegetarianismo.html

© Greif, Sergio

Sejamos judeus, cristãos ou muçulmanos, a fonte de nossa inspiração religiosa é a Bíblia. Mesmo os muçulmanos, que adotam outro livro sagrado, reconhecem a Bíblia como cânone. Ateus e agnósticos, embora não creiam diretamente em textos sagrados, são influenciados por estes visto que estão inseridos em sociedades que foram moldadas utilizando-os como inspiração. Vivemos em sociedades laicas, mas a religião, ainda que não praticada, influencia o pensamento e, em parte, o comportamento.

A costumeira justificativa religiosa para o especismo é baseada numa breve passagem bíblica que explicaria nossa natureza semi-divina e nosso direito sobre as demais espécies. Em Gênesis 1:26, está escrito: “Também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.”.

No entanto, a Bíblia é um livro complexo e permite múltiplas interpretações, além de versões e traduções.

Se verificarmos o original em hebraico, veremos que o que tem sido traduzido como “ter domínio” é a palavra “yirdu”. “Yirdu” poderia ser melhor traduzido como “descerão”. Fosse a intenção do autor do original hebraico de fato transmitir a idéia de domínio na criação, a palavra que deveria ser empregada seria “shalthanhon”. Nem mesmo a idéia de governo benévolo do homem sobre as demais criaturas é passada neste versículo, visto que a palavra que a Bíblia usa quando se refere ao domínio pacífico é “mashel”.

Porém, o que vemos é que foi empregada a palavra " yirdu", que permite uma outra tradução do versículo: “Disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e descerão para os peixes do mar, e para as aves dos céus, para os rebanhos e para toda a terra e para todo réptil que rasteja sobre a terra”. Se seguirmos essa tradução, que é mais fiel ao original, podemos interpretar que a intenção da Bíblia pode ter sido mostrar que Deus criou o homem de uma maneira especial, mas que o homem desceria (ou seja, seria igualado) para a condição de um animal.

Mesmo a continuação do livro parece apoiar esta idéia. Em Gênesis 1:28, costumamos ver o versículo traduzido desta forma: “E Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”. Novamente, a palavra “desça” aparece traduzida como “domine”. O que aparece nesse versículo como “sujeitai-a” é a palavra “kibshah”, que significa preservar. Fosse de fato a intenção do autor transmitir a idéia de “sujeitar” ele teria empregado a palavra “hichriach”.

A tradução literal deste versículo seria: “E abençoou-os Deus e lhes disse Deus: fecundem-se, tornem-se muitos, encham a terra e preservem-na; e desçam para (a condição dos) peixes do mar, e para as aves dos céus e para todo animal que rasteja sobre a terra”.

Esta idéia de que homens e animais estão em pé de igualdade perante Deus encontra-se em Eclesiastes 3:18-21: “Disse ainda comigo: é por causa dos filhos dos homens, para que Deus os prove, e eles vejam que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra?”

A intenção aqui não é, porém, estender-me em uma tradução revisionista de todo o texto bíblico, mas sim demonstrar que erros de tradução levam a erros de interpretação. Já foi demonstrado muitas vezes que a Bíblia pode ser utilizada para defender qualquer idéia. Pela tradução tendenciosa do versículo de Gênesis 1:26, nasceu toda a concepção de que o homem é um ser semi-divino e tem o direito de sujeitar ao seu domínio todos os demais seres da criação, sujeitar a Terra. Mas e se a intenção do autor tivesse sido outra?

Gênesis 1:29 e 1:30 apresentam a primeira lei dietética estabelecida por Deus para o homem e para os outros animais “E disse Deus: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão sementes e se acham na superfície de toda a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão sementes; isso vos será por alimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.”.

Esses versículos demonstram que não era a intenção original de Deus, pelo menos segundo o livro de Gênesis, que o homem matasse animais para comer. A dieta vegana era a consistente com o plano original de Deus. Apesar disso, quantas pessoas não lêem esses versículos diariamente e deixam de refletir sobre seu significado?

O Talmud, coleção de comentários e compilações da tradição oral judaica, reforça a idéia bíblica de que, se no princípio o homem não comia carne, era porque a intenção original de Deus era que este e os demais animais fossem vegetarianos. De fato, escreveram sobre esse assunto muitos comentadores bíblicos, entre eles Rashi (1040-1105), Abraham Ibn Ezra (1092-1167), Maimônides (1135-1214), Nachmanides (1194-1270) e Rabi Joseph Albo (séc. XV).

A Bíblia conta (Gen. 2:8) que quando Deus criou o homem, colocou-o para habitar no Jardim do Éden. Nesse jardim, foi ordenado que o homem se servisse dos frutos de toda árvore (Gen. 2:16), exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gen. 2:17). Devido ao pecado original, o homem foi expulso do jardim e recebeu também a permissão para comer as ervas do campo (Gen. 3:18). Poderia-se até dizer que a Biblia sugere que Deus criou o homem frutariano, e depois o fez vegano.

Conforme a genealogia apresentada em Gênesis 5, entre Adão e Noé passaram-se dez gerações. Segundo a Bíblia, nos tempos de Noé, Deus resolveu destruir tudo com um dilúvio, porque toda a criação havia se corrompido. Noé encarregou-se de construir uma arca e salvar sua família e alguns exemplares de cada espécie animal. Conta a Bíblia que, quando as águas baixaram, seres humanos e demais animais saíram e constataram que a terra estava seca.

Podemos, porém, imaginar que, após mais de um ano submersa, já não havia sobre a terra vegetação suficiente para sustentar a todos. Foram Noé e seus filhos, segundo a Bíblia, os primeiros seres humanos que comeram carne.

Toda a harmonia que havia prevalecido entre os homens e demais animais no paraíso, após a expulsão e durante o período do dilúvio, segundo a Bíblia, deixou de existir. “Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues.” (Gen. 9:2).

Naquele momento, passaram a existir animais herbívoros e carnívoros, e o homem tornou-se onívoro:“Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” (Gen. 9:3). A frase “como vos dei a erva verde” reforça que até então eles só tinham autorização para serem veganos. Seria, porém, esta concessão pontual motivo para justificar que comessemos carne até os dias de hoje?

Segundo Rav Kook, primeiro grão-rabino de Israel, não podemos ver essa permissão para comer carne, dada a Noé em uma situação específica, como uma concessão a toda a humanidade posterior. Em sua interpretação, estava claro que se tratava de uma permissão efêmera, até que a terra voltasse a produzir o alimento. A situação em que Noé se coloca é a de um homem perdido em uma ilha deserta, sem muitos recursos à disposição.

O período das dez primeiras gerações descrito em Gênesis foi, portanto, de pessoas vegetarianas, e a Bíblia mostra que o homem só começou a consumir carne quando condições ambientais o forçaram a tal.

Há um segundo período segundo o qual o autor da Bíblia mostra que Deus pretendia tornar o homem novamente vegetariano. As escrituras contam que, quando os israelitas saíram do Egito, o plano de Deus era que aquele povo recém-liberto da escravidão vagasse pelo deserto pelo tempo necessário para que se purificasse. Foi lhes dado um alimento que caia do céu, que era “como semente de coentro, branco e de sabor como bolos de mel” (Êxodo 16:31, Números 11:7).

Esse alimento, simples, mas completo nutricionalmente, deveria sustentá-los pelo tempo que permanecessem no deserto (40 anos), pois em Êxodos 16:35 está escrito “E comeram os filhos de Israel manah quarenta anos, até que entraram em terra habitada; comeram manah até que chegaram aos limites da terra de Canaã.”.

No entanto, durante a travessia do deserto, alguns incidentes ocorreram. As pessoas começaram a reclamar de sua dieta puramente vegetariana: “Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este manah” (Num 11:6). Por outro lado, pediam novamente pelos alimentos que consumiam no Egito – carne e peixes, entre outros (Num. 11:4-5).

A contra gosto, Deus atendeu às reclamações, providenciando carne sob a forma de codornizes, que foram sopradas pelo ventos dos mares. Porém, logo depois, Deus puniu aquelas pessoas, por não aceitarem de bom grado o alimento perfeito que Ele lhes oferecia: “Estando ainda a carne entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, quando a ira do Senhor se acendeu contra o povo, e o feriu com grande praga.” (Num. 11:33).

O lugar onde ocorreu esse incidente foi batizado de “Kivrot Hataava”, que em português significa Tumbas da Luxúria, porque foi o desejo de luxo daquele povo, e não sua necessidade, o que os levou à morte (Num. 11:34).

Essa passagem referente ao manah traz uma idéia de que poucos se dão conta: o alimento que nos é destinado é bastante simples, pode ser encontrado em abundância e nos mantém saudáveis. Por outro lado, quando buscamos alimentos que não nos são apropriados, perecemos.

Atualmente sabe-se, por diversas passagens, que a Bíblia permite o consumo de carne. No entanto, esse consumo se dá mais na base da concessão do que de uma recomendação, como se Deus dissesse: “O ideal é que o homem não coma carne, mas já que ele quer...”.

Por isso, a Bíblia estabelece alguns impedimentos que, em conjunto, são chamados de leis relativas à kashrut: a carne deve estar completamente livre de sangue (Levítico 17:10-14, 19:26; e Deuteronômio 12:16, 12:23, 15:23), somente podem ser consumidos animais considerados puros (Levítico 11), e o abate de um animal deve obedecer a um determinado ritual (Levítico 17:4).

As escrituras relacionadas refletem a observância escrupulosa de muitas regras, mas tão somente no que se refere ao consumo de produtos de origem animal. As únicas condições impostas ao consumo de alimentos de origem vegetal é que estes estejam limpos, o que é facilmente compreensível, do ponto de vista sanitário.

Qual a mensagem da Bíblia, com todas essas proibições ao consumo de alimentos de origem animal? Tornar esse consumo mais refletido, duro, impraticável. É quase impossível cumprir com todas as regras impostas pela Bíblia para o consumo de carne

Justamente nisso está a graça. Com tantas regras, Deus parece de novo estar dizendo “O homem não deve comer carne”.Quando a Bíblia faz referência à generosidade divina (Deut. 8: 7-10; Deut. 11:14; Salmos 72:16, Amos 9:14-15; Jer. 29:5; Isaías 65:21), os produtos mais freqüentemente citados são os frutos, vegetais, sementes, vinho e pão, mas jamais as carnes.

Tal qual no Jardim do Éden, em que nem o homem nem os animais comiam carne, a promessa bíblica é a de que, com a vinda do Messias, novamente o mundo se tornará vegetariano. “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o filhote do leão e o animal doméstico andarão juntos, e um condutor pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão como o boi comerá palha. A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco.” (Isaías 11: 6-8). Continua Isaías (65:25): “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR.”.

Beleza Vegetariana (Matéra da Revista Época)
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Link da Revista: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG74447-5990-421,00.html

Tratamento de imagem: Danilo Orion Faloppa. Foto: Amdré Sader
Beleza Vegetariana
"Não quero catequizar ninguém. Mas
me preocupo com minha saúde"
Fernanda Lima, atriz e modelo

Ela é gaúcha, da terra do churrasco. Seu 1,73 metro de altura sugere um crescimento amparado por uma sólida base de proteínas. Mas a atriz Fernanda Lima, de 27 anos, diz que não mastiga um bife há mais de dois anos. "Fico mais leve para praticar ioga, e minha digestão é melhor", afirma Fernanda, sócia do restaurante vegetariano Maní. "Não acho errado o homem se alimentar de carne. Não quero catequizar ninguém. Mas me preocupo com minha saúde."

Quando Fernanda sai para jantar fora, pede sempre risoto ou salada. Há 20 anos, quem fizesse isso estaria condenado a ser a piada oficial da mesa ("Quantos vegetarianos são necessários para trocar uma lâmpada? Dois: um para rosqueá-la, outro para ver se ela não tem nenhum ingrediente de origem animal"). Hoje, porém, é comum que os amigos se ofereçam para dividir o prato. No Brasil, 28% das pessoas "têm procurado comer menos carne", segundo uma pesquisa sobre hábitos alimentares feita pelo grupo Ipsos. É o segundo maior índice mundial, próximo ao canadense e maior que o britânico. Fica atrás apenas do registrado nos Estados Unidos, onde os hambúrgueres são uma das maiores fontes de doenças cardiovasculares e sentimento de culpa.

No mundo todo, a quantidade de vegetarianos famosos só faz crescer. Entre os estrangeiros, estão estrelas do cinema como Natalie Portman e Brad Pitt, músicos como Paul McCartney, Bob Dylan, Michael Jackson ou Moby e empresários como Steve Jobs. Por aqui, além de Fernanda Lima, a onda vegetariana já arrebanhou a animadora Xuxa, o modelo Paulo Zulu e o ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz. Com defensores como esses, o vegetarianismo virou definitivamente um elemento da cultura pop - sim, comida também é cultura.

Para um em cada quatro adolescentes americanos, ser vegetariano é uma atitude "positiva". Por lá, 2,5% da população se considera vegetariana. Não há pesquisas confiáveis no Brasil. Mas o crescimento também é visível. O site da Sociedade Vegetariana Brasileira tem 3 mil acessos por dia. O Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano, marcado para agosto, aguarda 10 mil participantes.

No Orkut, site de relacionamentos mais freqüentado no Brasil, fazem sucesso comunidades como Eu Queria Ser Vegetariano (1.800 membros) ou Sou quase Vegetariano (406). A palavra de ordem nelas é comer menos carne ou, se possível, não comer carne alguma. Elas tratam os carnívoros como fumantes tentando abandonar o cigarro. Em São Paulo, as baladas dos straight edge - freqüentadas por punks contra drogas, álcool e violência - são conhecidas como Verduradas. Nessas baladas, as guitarras gemem enquanto os convidados consomem chicória, couve-flor e suco de clorofila.

A cultura contemporânea está repleta de referências vegetarianas. Até as animações infantis estão cheias de vegetarianos. Em Madagascar, um leão supera seus instintos para não almoçar seu amigo - uma zebra. O Espanta-Tubarões e Procurando Nemo mostram tubarões vegetarianos. Lisa Simpson, a irmã inteligente de Bart Simpson, do desenho animado Os Simpsons, se recusa a comer animais mortos. Phoebe, a loira do seriado Friends, também. Nos Estados Unidos, crianças e adolescentes aderem ao vegetarianismo em ritmo duas vezes mais rápido que os adultos. "Quem mais nos procura são os jovens", diz Marly Winckler, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

Beleza Vegetariana
"Antes de sair com os amigos, janto em casa. É muito difícil seguir minha dieta num restaurante"
Kyra Gracie, carioca, ex-campeã mundial de jiu-jítsu, adepta da Dieta Gracie, criada por sua família há três gerações

"A nova geração possui um sentimento difuso de que comer carne é ruim e de que ser vegetariano é, de alguma forma, ser superior", afirma a antropóloga Gisela Black Taschner, especialista em tendências de consumo da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. O mercado já percebeu isso. A venda de produtos saudáveis cresce 15% ao ano. É o suficiente para atrair até indústrias de derivados de carne, como a Sadia e a Perdigão. "Vegetarianos radicais são um grupo muito pequeno. Mas há um crescimento acentuado do que chamo hábito vegetariano: evitar o excesso de carne, principalmente vermelha", afirma Fernanda Oruê, gerente de marketing da Sadia. Para esse público, os grandes frigoríficos fazem hambúrgueres, quibes, lasanhas e nuggets de soja. Empresas menores produzem leite condensado de soja, creme de leite de soja - útil para estrogonofes à base de carne de soja -, ovos de Páscoa com leite de soja e até mortadela de soja. No rótulo de todos os produtos vêm estampados slogans como "escolha saudável".

Guru das modas gastronômicas, o crítico Jeffrey Steingarten, da revista Vogue americana, proclamou que a mais saborosa e eficiente dieta para emagrecer é o cardápio vegetariano do norte da Índia. O francês Alain Passard, chef com cotação máxima no guia francês Michelin, montou um restaurante quase vegetariano - em que peixes e aves só aparecem se o freguês pedir muito. Redutos do carnivorismo, como o restaurante dos Chicago Bears, criaram cardápios vegetarianos. E Charlie Trotter, o mais conceituado chef americano, chegou a criar um cardápio de comida vegetariana crua, para adeptos da corrente que veta o aquecimento de alimentos acima de 42 graus. A dieta de Atkins, que fez sucesso na virada do século pregando o alto consumo de proteínas e gorduras, perdeu 80% de seus adeptos.

Durante séculos vista como o item mais saudável, suculento e valorizado da dieta, a carne parece ter passado do ponto. Por dois motivos. O primeiro - justificativa mais usada por quem se torna vegetariano - é a preocupação com a saúde. Os defensores do vegetarianismo afirmam que não comer carne reduz a mortalidade e a incidência de centenas de doenças. O segundo é a preocupação ética cada vez mais freqüente com a matança de animais. Cada uma dessas duas justificativas merece uma análise detida. Comecemos com a primeira: a saúde.

O estatístico Paul Appleby, da Universidade de Oxford, analisou todos os trabalhos disponíveis que comparavam a mortalidade de vegetarianos à dos onívoros. Verificou que os dois maiores estudos já feitos não mostraram diferença significativa entre os dois grupos. Um terceiro estudo, feito com os adventistas americanos, vegetarianos em sua maioria, produziu uma conclusão mais animadora. Vegetariano, Appleby sugeriu que a pequena vantagem vegetariana também poderia ser atribuída a fatores não-dietéticos, como não fumar, praticar mais atividade física ou pertencer a classes sociais mais elevadas. Mesmo assim, de acordo com ele, descontados os fatores externos, a dieta vegetariana "parece conferir um ganho de um e meio a dois anos de vida".

Beleza Vegetariana
"Estou há seis anos sem carne. Mas já tive recaída. Me ofereceram churrasco e meti o dente"
Evandro Mesquita, cantor,
líder do grupo Blitz
Os críticos de Appleby dizem que esse ganho em tempo de vida também poderia ser atribuído à religiosidade, comum entre vegetarianos. Em outras pesquisas, a religião já mostrou ter efeito positivo sobre a saúde. Citam como exemplo os mórmons, que comem carne e também têm índices de mortalidade por doença inferiores aos do restante da população. Mas não está excluída a hipótese de que parar de comer carne aumente o tempo de vida. "Muitas pessoas defendem essa teoria de forma quase religiosa", diz o oncologista Drauzio Varella. "Mas ainda não há evidência científica para apoiar essa crença."

Um número também repetido com freqüência afirma que vegetarianos têm 40% menos risco de sofrer de câncer. Mas, segundo alguns especialistas, esse dado precisa ser visto com uma pitada de cautela. "Vegetarianos podem seguir vários tipos de dieta. Onívoros também. E há uma centena de tipos de câncer", diz o cirurgião oncologista Benedito Mauro Rossi, do Instituto do Câncer de São Paulo. "Sabe-se, porém, que consumir 160 gramas de carne por dia aumenta o risco de câncer de intestino em cerca de 30%." Os 160 gramas correspondem a um bife alto ou a dois hambúrgueres. Carnes processadas - como os embutidos - parecem oferecer risco ainda maior, por causa das substâncias usadas no preparo.

Mas fugir dos riscos da carne pode implicar outros perigos. Em teoria, consumir muitos e variados vegetais garante todos os nutrientes necessários. Na prática, nem todos seguem a dieta com capricho. Um dos riscos é a anemia, causada pela falta do ferro presente na carne. Estudos com grupos vegetarianos mostram que esse problema ainda é comum. Dois truques centenários podem ajudar a driblá-lo. Um é cozinhar em panelas de ferro. O outro é beber água em recipientes como os copos usados pelos indianos, com exterior de cobre e interior de ferro. O mineral liberado ajuda a fornecer parte do que faltar na dieta. Para quem come somente vegetais, outro risco comum é a falta de proteínas ou de vitamina B12. Isso pode prejudicar crianças em crescimento, adolescentes e idosos. Mas também é um problema contornável. "Quem come três cereais e uma leguminosa por refeição garante toda a proteína necessária", afirma a nutricionista Késia Quintaes. Por fim, pode faltar cálcio, principalmente para vegetarianos que não consomem laticínios. Nesse caso, é possível recorrer a suplementos.

Se o vegetarianismo radical ainda é um tema controverso e sujeito a riscos, ninguém duvida de que comer menos picanha é um conselho sensato. Nem que seja apenas para perder peso. Para emagrecer, a dieta vegetariana tem os mesmos benefícios das outras, afirma a nutricionista Susan Berkow, da Universidade George Mason, na Virgínia. "Emagrecer geralmente resulta em redução da pressão arterial e em menor risco cardíaco", diz ela. Em dezembro, ela publicou um artigo revisando 87 estudos sobre o efeito de dietas vegetarianas. Concluiu que elas têm duas vantagens. Primeiro, os pacientes costumam segui-las por mais tempo. Depois, obtêm uma perda de peso maior que a média das outras dietas. Como resultado, os vegetarianos pesam entre 3% e 20% menos que os comedores de carne.

Muitos adotam a filosofia "semivegetariana". Tentam comer o mínimo de carne possível. "Para eles, carne é apenas um ingrediente. Que não tem nenhum atrativo especial e não é fundamental", diz Reinier Evens, diretor do site Trendwatching. com, especializado em identificar tendências. Uma pesquisa americana mostrou que 60% dos que se diziam vegetarianos tinham comido, nas 24 horas anteriores, algum naco de bife, frango ou peixe. "Estou há seis anos sem carne", diz o cantor Evandro Mesquita, líder da Blitz, de 54 anos. Mas ele admite comer peixe eventualmente, e nem sempre resiste às tentações da carne. "Na última recaída, Tony Bellotto, dos Titãs, não sabia que eu era vegê e me ofereceu um churrasco. Meti o dente", diz ele. Esse grupo também pode ter problemas de digestão. A modelo paulista Daniela Vidotti, de 27 anos, diz que, também num churrasco, beliscou uma lingüiça. "Gostei do sabor, mas não me fez bem. Vomitei a noite inteira", afirma.

Beleza Vegetariana
"Outro dia, durante um churrasco, belisquei uma lingüiça. Gostei do sabor, mas não me fez bem. Vomitei a noite inteira"
Daniela Vidotti,
paulista, modelo

Algumas dietas de orientação vegetariana são difíceis de administrar. Kyra Gracie, de 20 anos, única mulher a lutar profissionalmente no clã carioca de artes marciais segue uma complicada receita familiar criada há três gerações. Além de proibir carne vermelha, ela divide os alimentos em grupos, que podem ou não ser combinados. A dieta é tão complexa que, quando vai sair com amigos, Kyra come antes em casa. Na casa da psicóloga paulista Esther Lançarini Sheid da Costa, de 53 anos, a dificuldade é de outra natureza. Só ela come carne (pouca). O marido é ovolactovegetariano (não come carne, mas come ovos e leite), o filho não come carne vermelha e a filha não come carne de nenhuma espécie.

Há também correntes como o crudivorismo, que defende o consumo de vegetais crus. Os crudivoristas afirmam que, no cozimento, os vegetais perdem boa parte de seus nutrientes. "Não obrigo as pessoas a seguir meus conselhos, mas recomendo que pelo menos 70% dos alimentos que ingerem sejam crus", diz o terapeuta Fernando Travi, o primeiro brasileiro a se tornar um raw-coach, uma espécie de técnico que orienta as pessoas sobre como se alimentar."Eu só ingiro comida crua", diz.

A segunda justificativa normalmente empregada para o vegetarianismo se baseia em argumentos éticos e ambientais. "Escravizar e matar animais é uma variante do racismo. É submeter o mais fraco somente porque pertence a outra espécie", diz o filósofo Peter Singer, da Universidade Princeton, expoente da defesa dos direitos dos animais. "Não podemos reclamar que o mundo é horrível se o horror começa em nosso prato", diz a presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, Marly Winckler.

O gado criado no Brasil freqüentemente é manejado com brutalidade. O abate, em tese, deveria ser feito com um golpe de martelo hidráulico na cabeça, seguido de um corte na garganta, para que o sangue jorrasse para fora do corpo. Mas, como a fiscalização é precária, em muitos abatedouros clandestinos as reses são mesmo abatidas a pauladas. As galinhas de granja não têm destino melhor. São criadas em ambiente permanentemente iluminado para que não parem de comer e sigam botando ovos - até seis por dia, em lugar do único ovo que produziriam em condições naturais. Os pintinhos machos, que não servem para botar, são jogados vivos numa espécie de moedor gigante. A indignação contra esse tipo de tratamento, denunciada em filmes, como o documentário A Carne É Fraca, chega até mesmo aos não-vegetarianos. "Na Europa, uma tendência forte é a dos consumidores que exigem que sua carne provenha de criação orgânica e tenha sido abatida sem crueldade", diz Reinier Evens, do site Trendwatching.com.

Mas as conseqüências ambientais do consumo de carne vão muito além da matança de animais de corte. A criação de gado, somente na Amazônia, nos anos 90, foi responsável pela devastação de uma área duas vezes maior que Portugal. Pode parecer piada, mas os gases emitidos pela digestão das vacas respondem por 70% das emissões brasileiras de gás metano - substância causadora do efeito estufa. Por causa desse efeito, na Austrália cobra-se imposto ambiental sobre cada cabeça de gado. O demógrafo Joel Cohen afirma que, se toda a população da Terra quisesse adotar um padrão de consumo igual ao dos americanos, com a ingestão de 120 quilos de carne por ano, precisaríamos de outros quatro planetas.

Beleza Vegetariana
"Aqui em casa cada um segue
uma linha de dieta. Ainda bem
que não tem nenhum vegan"
Esther Lançarini, psicóloga,
em jantar com sua família

 O escritor Michael Pollan analisou a complexidade de manter uma alimentação ética em seu livro O Dilema do Onívoro, publicado no início do ano. Nele, Pollan seguiu do começo ao fim todas as cadeias alimentares possíveis, para avaliar os efeitos ambientais gerados por cada tipo de dieta - da agroindústria americana à caça e coleta dos indígenas. Pollan afirma que comer de tudo - animais e vegetais - foi um dos fatores que levaram a humanidade a evoluir. "Mas quem come de tudo corre o risco de morrer envenenado", diz ele. Por isso, para escolher entre os tipos de alimento, afirma Pollan, os hominídeos desenvolveram o poder de observação e a memória. O homem desenvolveu sua cultura alimentar a partir dos estratagemas para superar as defesas dos animais ou vegetais que comia. Isso incluiu caçar e cozinhar com fogo. Mas Pollan afirma que esse mesmo comportamento levou a espécie humana a desenvolver também um senso de ética. Afinal, um ser que pode comer qualquer coisa (inclusive outros humanos) precisa de regras, rituais. Não somos apenas aquilo que comemos, mas também a forma como comemos.

É esse senso de ética que nos leva a avaliar as conseqüências de nossas dietas. De acordo com Pollan, não apenas a produção de carne, mas também a agricultura é hoje profundamente prejudicial ao ambiente. Para plantar é preciso derrubar florestas e matar animais, destruindo seus hábitats ou triturando-os inadvertidamente sob colheitadeiras e tratores. Por isso, comer apenas vegetais também tem conseqüências ambientais. Surpreendendo os ambientalistas, Pollan afirma que uma forma de produção que geraria menos dano ambiental e menos matança de animais, preservando a biodiversidade, seriam as fazendas orgânicas nas quais se incluísse, paradoxalmente, a criação de gado com rotação de pasto. Isso reduziria os efeitos destrutivos da agricultura ou da pecuária extensiva sobre os animais silvestres. E alguns produtos animais, como estrume ou tripas de galinha, poderiam ser usados para reduzir o impacto ambiental das plantações.

Segundo Steven Davis, biólogo da Universidade do Oregon, uma fórmula do gênero seria melhor para o ambiente que a exclusivamente vegetariana. E causaria a morte de 300 milhões de animais a menos por ano, levando em conta tanto animais de corte quanto os silvestres. Pollan conclui que, para o ambiente, a melhor opção seria o homem viver em um regime de caça-coleta, como os índios ianomâmis. Os índios só intervêm na natureza para tirar o alimento necessário a sua sobrevivência. Mas mesmo assim persiste a pergunta: o homem tem o direito de matar animais? Eis uma questão que ganha crescente força no mundo contemporâneo. Diz a atriz Mary Tyler Moore, vegetariana militante: "Pode demorar um pouco, mas uma hora vamos olhar para trás e nos perguntar como era possível que, em pleno século XXI, ainda estivéssemos nos alimentando de animais".

Beleza Vegetariana Beleza Vegetariana
CADÁVERES
Carcaças de bois são transportadas em abatedouro no Arkansas, Estados Unidos. No Brasil, grande parte do abate ainda é clandestina
CRUELDADE, NÃO
Militante dos direitos dos animais protesta contra o tratamento dispensado aos frangos diante de uma lanchonete em Hong Kong
Beleza Vegetariana Beleza Vegetariana
GORDURA, SIM
Crianças obesas em uma lanchonete em Moscou. Consumo de carne hoje é o dobro do daquele registradono século XIX
INOVAÇÃO
O chef Trotter incluiu pratos crudicistas em seu restaurante

Ferro da carne: desnecessário
Link deste artigo: http://www.vista-se.com.br/artigos.htm#ferro
Fonte: Grupo Bem Alimentado
Texto: Dr. Eric Slywitch

A importância dada ao ferro da carne é excessiva.

Ferro é ferro, um único mineral. No entanto, esse ferro pode estar "disfarçado" de heme e não-heme. O ferro heme apresenta uma absorção de cerca de 20% e sofre pouca influência dos fatores que dificultam ou promovem a sua absorção.

Já o ferro não-heme apresenta absorção de cerca de 10% e é mais influenciado pelos fatores que estimulam ou inibem a sua absorção. O reino vegetal é composto exclusivamente por ferro não-heme. A diferença desses dois ferros é apenas na sua absorção. Entrando no organismo eles são iguais e têm as mesmas funções.

É aqui que começa a nossa questão: o ferro da carne não é esse "todo poderoso" ferro heme, mais absorvido. Vou explicar.
Uma pessoa precisa absorver diariamente 1 a 2 mg de ferro. Como a absorção do ferro não é simples, a recomendação de ingestão dele é bem maior do que o que precisamos absorver. Homens precisam ingerir cerca de 8 mg de ferro por dia e as mulheres 18 mg.
Pois bem, seguindo a recomendação de consumo de carne preconizada por muitos nutricionistas de 100 gramas de carne magra por dia e, sendo essa carne das mais ricas em ferro, a pessoa estará ingerindo 3 mg de ferro.

É aqui o ponto chave da questão! O ferro da carne é 60% não-heme (igual ao dos vegetais!!) e 40% heme. Portanto, se a questão de comer carne é pelo fato de ingerir o ferro heme, 100 gramas de carne contém 1,2 mg de ferro heme (40% do ferro total), e não 3 mg!
Mas não para por aí! Após o abate do animal, a carne não é consumida imediatamente. Quanto mais tempo ela fica guardada, mais ferro heme se transforma em não-heme. E para piorar a situação, o calor também acentua a transformação do ferro heme em não-heme. Isso significa que quando você come a carne, está consumindo bem menos de 40% de ferro heme, ou seja, bem menos de 1,2 mg de ferro, mas vamos considerar que você ingeriu realmente esses 1,2 mg.

Esse ferro heme é 20% absorvido. Isso significa que, ao ingerir 1,2 mg de ferro, você estará absorvendo 0,24 mg de ferro. Lembre-se de que você precisa absorver de 1 a 2 mg por dia.

Através desses cálculos podemos ver claramente que a ingestão de carne não satisfaz as necessidades diárias de ferro.
Estudos com vegetarianos demonstram claramente que a ingestão de ferro, ao contrário do que muitos pensam, é maior do que a de não-vegetarianos. Esses estudos demonstram que os vegetarianos costumam ingerir cerca de 15 a 20 mg de ferro por dia e, como a sua absorção é de cerca de 10%, absorvemos 1,5 a 2 mg por dia, que é a quantidade necessária.

Para ajudar ainda mais, a vitamina C é um dos maiores promotores da absorção de ferro. Os vegetarianos ingerem o dobro de vitamina C do que os onívoros, o que favorece intensamente a absorção do ferro.

Estudos populacionais demonstraram claramente que a prevalência de anemia ferropriva em vegetarianos é a mesma que a encontrada em onívoros. O artigo científico mais recente que discorre sobre esse fato pode ser encontrado com nome "Bioavailability of iron, zinc, and other trace minerals from vegetarian diets" e pode ser encontrado com a referência: American Journal of Clinical Nutrition. 78(3 Suppl):633S- 639S, 2003 Sep. Assim, não podemos, em hipótese alguma, dizer que o ferro contido na carne é tão importante quanto se alegam por aí.

Devemos parar de comer carne? (Matéra da Revista Super Interessante)
Link deste artigo: http://www.vista-se.com.br/artigos.htm#devemos
Link da Revista: http://super.abril.com.br/super2/superarquivo/2002/conteudo_120220.shtml

A decisão sobre que comida colocar no prato tem implicações econômicas, ambientais, éticas, históricas e religiosas. Saiba as vantagens e desvantagens do alimento.

Comer não é só uma questão de matar a fome. A decisão sobre que comida colocar no prato tem implicações econômicas, ambientais, éticas, culturais, fisiológicas, filosóficas, históricas, religiosas.

Embora a porcentagem de vegetarianos venha se mantendo mais ou menos estável ao longo da história, há um interesse crescente no assunto - restaurantes naturais e vegetarianos ficam lotados na hora do almoço, tornou-se comum, pelo menos nas classes médias urbanas, a preocupação em reduzir o consumo de carne, e surgiu uma indústria bilionária de produtos naturais que, nos Estados Unidos, já movimenta quase 8 bilhões de dólares.

Esta reportagem não ensina você a comer. Felizmente, essa ainda é uma decisão pessoal, que depende apenas do seu julgamento sobre o que é certo e o que é errado e - não menos importante - do seu gosto. O que essa matéria faz é tentar ajudar na decisão com o máximo possível de informação insuspeita sobre cada um dos muitos aspectos envolvidos nessa importante decisão. Se você, depois de terminá-la, vai devorar um brócolis ou um cheeseburger, já não é assunto nosso. Só esperamos que, terminado o texto, ao decidir o que comer você saiba o que está fazendo e o que isso implica.

O que é a carne?

A faca desce macia, cortando sem esforço o pedaço de picanha. Dourada e crocante nas bordas, tenra e úmida no centro. Você põe a carne na boca e mastiga devagar, sentindo o tempero, a maciez, a temperatura. O sumo que escorre dela enche a boca e, com ele, o sabor incomparável. Carne é bom.

Mas que tal assistir à mesma cena sob outra perspectiva? No prato jaz um pedaço de músculo, amputado da região pélvica de um animal bem maior que você. Com a faca, você serra os feixes musculares.

A seguir, coloca o tecido morto na boca e começa a dilacerá-lo com os dentes. As fibras musculares, células compridas - de até 4 centímetros - e resistentes, são picadas em pedaços. Na sua boca, a água (que ocupa até 75% da célula) se espalha, carregando organelas celulares e todas as vitaminas, os minerais e a abundante gordura que tornavam o músculo capaz de realizar suas funções, inclusive a de se contrair.

Sim, meu caro, por mais que você odeie pensar que a comida no seu prato tenha sido um animal um dia, você está comendo um cadáver.

Carne é tecido animal, em geral muscular. As fibras que a compõe são feixes de células musculares, enroladas umas nas outras. Em volta delas há uma cobertura de gordura, cuja função é lubrificar o músculo e permitir que ele relaxe e se contraia suavemente. Ou seja, não há carne sem gordura.

A diferença entre carne branca e vermelha é a quantidade de ferro no tecido - o mesmo mineral que dá cor ao sangue. As células de animais grandes, como o boi, são ricas de uma molécula chamada mioglobina, que contém ferro. Peixes e galinhas, por terem o corpo menor, não precisam de reservas tão grandes de nutrientes nas células e, por isso, têm menos mioglobina. Animais mais velhos têm carne mais vermelha - isso explica a brancura do frango industrializado, abatido antes dos dois meses, se comparado à galinha caipira. Essa última tem mais tempo para acumular mioglobina nas células.

Números, números, números

Há no mundo 1,35 bilhão de bois e vacas. Criamos 930 milhões de porcos, 1,7 bilhão de ovelhas e cabras, 1,4 bilhão de patos, gansos e perus, 170 milhões de búfalos. Some todos eles e temos uma população de animais quase equivalente à humana dedicando sua vida a nos alimentar - involuntariamente, é claro. E isso porque ainda não incluímos na conta a população de frangos e galinhas abastecendo a Terra de ovos e carne branca: 14,85 bilhões.

Só no Brasil há 172 milhões de cabeças de gado bovino - uma para cada cabeça humana. Nosso rebanho bovino só é menor que o da Índia, onde é proibido matar vacas. Na média, um brasileiro come perto de 40 quilos de carne bovina por ano - ou seja, uma família de cinco pessoas devora uma vaca em 12 meses. Somos o quarto país do mundo onde mais se come carne bovina. Um brasileiro médio come também 32 quilos de frango e 11 quilos de porco todo ano.

Todos os tipos de vegetarianos
Vegetarianos não são todos iguais. Conheça as diferenças.

Ovolactovegetarianos

Não comem carne de nenhum tipo, mas consomem ovos, leite e derivados. Em geral, quando alguém diz que é "vegetariano", é essa dieta que ele segue.

Lactovegetarianos

Provavelmente o mais numeroso dos grupos, já que essa dieta é predominante no sul da Índia - por razões religiosas. Nada de carne, mas leite e derivados estão liberados. O ovo é terminantemente proibido, por conter a "vibração da vida".

Vegans

Não consomem nada de origem animal: carne, ovos, leite, mel. Roupas de couro, lã e seda também estão proibidas.

Semivegetarianos

Aquelas pessoas que afirmam ser vegetarianas, mas abrem exceções para peixes ou aves. São vistos com desdém pelos outros grupos. A principal razão para essa dieta, que recusa só a carne vermelha, é o cuidado com a saúde.

Macrobióticos

Dieta tradicional japonesa, que pode ser vegan, ovolactovegetariana ou incluir peixe. Há várias restrições - a dieta acompanha as estações do ano, o cardápio tem que incluir uma árvore toda, da semente ao fruto. Como foi elaborada no Japão, a macrobiótica não contempla a realidade brasileira (as estações do ano, por exemplo, são diferentes aqui). Isso pode levar a deficiências alimentares.

Crudivorismo

Só comem vegetais crus. É preciso cuidado com essa dieta, porque ela exclui os grãos, que são as melhores fontes de proteína e ferro dos vegetarianos. Há risco de desnutrição.

Frugivorismo

Os frugivoristas não só rejeitam carne, como evitam machucar ou matar vegetais. Por isso, comem apenas aquilo que as plantas "querem" que seja comido: frutas e castanhas. Consideram o consumo de folhas, caules e raízes uma violência. A dieta não é das mais saudáveis, já que é pobre em proteínas e em minerais.

Carne faz mal?

Quem come mais carne - especialmente carne vermelha - tem índices maiores de câncer e de enfarte, as duas principais causas de morte do planeta. É o que dizem as estatísticas. Carne faz mal, então? Não é tão simples.

Nos últimos 30 anos, as autoridades dos Estados Unidos vêm aconselhando os americanos a diminuir a ingestão de carne vermelha e manteiga por causa de suspeitas de que a gordura saturada presente em grande quantidade nesses alimentos aumenta a taxa de colesterol e, com isso, causa ataques cardíacos.

O conselho virou norma no mundo todo - a Organização Mundial da Saúde e vários governos adotaram a política de reduzir a gordura saturada. Tudo muito bom, só que tem algumas peças que, mesmo após três décadas de pesquisas, continuam não se encaixando no quebra-cabeças.

Uma delas é a Europa mediterrânea. Lá, desde que terminaram os rigores da Segunda Guerra, o consumo de carne vermelha tem aumentado. Pois bem: a taxa de doenças cardíacas diminuiu no mesmo período.

E a França? O país da pâtisserie, fã ardoroso das carnes vermelhas de todo tipo, onde qualquer almoço começa refogando o que quer que seja em manteiga derretida, tem uma das mais baixas taxas de mortes por ataque cardíaco do mundo.

No ano passado, Gary Taubes, correspondente da revista americana Science e um dos principais escritores de ciência do mundo, escreveu um longo artigo no qual classificava o medo da gordura saturada como "dogma".

Taubes afirma que, mesmo com tanta pesquisa, não há prova de que gordura saturada e enfartes estão ligados. E vai além: diz que a propaganda do governo só serviu para fazer com que os americanos comessem mais - ao evitar a gordura, eles acabavam ingerindo mais carboidratos, mais açúcar, para manter a quantidade diária de calorias (o corpo tende a reclamar quando as calorias são insuficientes para saciá-lo - isso se chama fome). Resultado: o índice de obesidade passou de 14% para 22% no país. E obesidade, sabidamente, é um sério fator de risco para doenças cardíacas.

A maior parte do mundo médico ainda acredita na malignidade da carne vermelha e da manteiga. ("Não tenho dúvidas da relação entre gordura saturada e doenças cardiovasculares", afirma o nutricionista argentino Cecílio Morón, oficial da agência da ONU que cuida de alimentação, a FAO. Denise Coutinho, que coordena a política de nutrição do governo brasileiro, repetiu quase as mesmas palavras.) Mas o artigo de Taubes serviu para mostrar que nutrição não é baseada numa relação simples de causa e conseqüência, tipo "mais carne, mais ataques cardíacos".

Mas, afinal, o que sobra da discussão? Dietas de países gelados como a Escócia e a Finlândia, onde o único vegetal consumido em quantidade é o tabaco, estão equivocadas. Os altos índices de ataques cardíacos por lá são prova incontestável. Mas os franceses, e os mediterrâneos em geral, devem estar fazendo alguma coisa certa. Sua dieta é variada e rica em vegetais frescos, azeite de oliva (tido como redutor de colesterol), vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dos americanos, esses povos comem com calma, em ambientes descontraídos. O que os está salvando dos ataques cardíacos? Os legumes, o azeite, o vinho, a conversa mole depois do almoço, a brisa marinha? Ninguém sabe ao certo. Provavelmente é uma conjunção de todos esses fatores.

O raciocínio vale em parte para o câncer também. Os comedores de carne morrem mais de câncer de intestino, boca, faringe, estômago, seio e próstata. Ainda assim, o elo entre carne e câncer é meio frouxo. Tudo indica que, se é que a carne aumenta mesmo a incidência de câncer, sua influência é bem pequena - um fator entre muitos.

Agora, de uma coisa ninguém tem dúvidas: vegetais fazem bem. Uma dieta rica em frutas, legumes e verduras claramente reduz as chances de ter câncer no esôfago, na boca, no estômago, no intestino, no reto, no pulmão, na próstata e na laringe, além de afastar os ataques cardíacos. Frutas e legumes amarelos têm caroteno, que previne câncer no estômago; a soja possui isoflavona, que diminui a incidência de câncer de mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece o sistema imunológico; e por aí vai - essa lista poderia ocupar o resto da revista. Em resumo: não está bem claro se a carne faz mal. Muito bem, pelo jeito, não faz. Mas, para ser saudável, o importante é ter uma dieta rica e variada de vegetais. Seja ela vegetariana ou não.

Dá para viver sem carne?

Dá. O vegetarianismo exige cuidados e conhecimentos de nutrição, mas com certeza pode-se ter uma dieta saudável sem carne. Aliás, o fato de exigir cuidados a faz mais saudável. Um vegetariano tende a prestar mais atenção no que come e nos efeitos disso sobre seu corpo. E isso, em si, já é um hábito salutar.

Muitos nutricionistas afirmam que as crianças não devem, de maneira nenhuma, ficar sem proteína animal, sob risco de terem o desenvolvimento cerebral prejudicado. Essa regra deve ser seguida a não ser que os pais saibam muito bem o que estão fazendo, conheçam as propriedades de cada alimento e - não menos importante - que a criança queira.

Os ovolactovegetarianos não têm problemas com proteínas porque os derivados de animais são tão protéicos quanto a carne. O perigo é que leite e ovos são pobres em minerais, especialmente ferro, que é fundamental para a saúde - ele é usado para construir a hemoglobina, uma molécula cuja função é carregar o oxigênio do pulmão para as células. Sem ferro, portanto, as células podem morrer. Isso é a anemia.

Ou seja, ovolactovegetarianos não podem basear sua dieta no leite, nos ovos e nos queijos, sob risco de ficarem sem nutrientes valiosos. É preciso comer muitos e variados vegetais, em especial soja, feijão, brócolis, couve, espinafre - todos ricos em ferro.

A quantidade é fundamental, porque o ferro dos vegetais é menos absorvido pelo corpo que o de origem animal. Uma boa dica é acompanhar as refeições com suco de laranja, já que a vitamina C ajuda na absorção do ferro. Outra fonte de ferro é a casca de grãos como o arroz e o trigo. Por isso, eles devem ser sempre integrais.

Denise Coutinho, responsável pela política nutricional do governo federal, adiantou à Super que está em estudo uma medida para tornar a fortificação com ferro obrigatória nas farinhas de trigo e de milho. A medida, que visa combater a desnutrição, vai acabar ajudando a vida dos vegetarianos.

Já para os vegans, a palavrinha mágica é "soja". Se você não gosta desse grão ou é alérgico a ele, virar vegan vai ser bem mais penoso. A questão é a seguinte: suprir suas necessidades protéicas com carne é fácil. "Afinal, você é feito de carne", diz Pedro de Felício, especialista em produtos de origem animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um bife tem a mesma composição que os músculos do seu corpo. As proteínas das quais ele é feito são, também, iguais às suas, feitas com os mesmos aminoácidos. Portanto, contêm tudo o que você precisa.

Proteínas vegetais são mais simples. Elas não contêm todos os componentes necessários. A soja, entre os vegetais, é o que tem as proteínas mais completas. Há outras fontes de proteína, como o feijão, mas, se você não come soja, vai precisar de grandes quantidades e de muita variedade de vegetais para juntar todos os aminoácidos de que precisa. "Desde que sigam essa regra, os vegans tendem a ter uma dieta até mais equilibrada que os ovolactovegetarianos, já que não ocupam lugar no estômago com ovos e leite, que são pobres em vários nutrientes", diz o nutricionista vegan George Guimarães.

Uma questão para os vegans é a vitamina B12, que o corpo não produz e não existe em vegetais. A B12 é fabricada por bactérias e pode ser encontrada nos animais (que comem bactérias ao ciscar ou pastar). Mas suprir as necessidades de B12 é fácil: qualquer biscoito ou cereal com a palavra "fortificado" no rótulo contém a vitamina. Ela também é vendida em cápsulas.

Somos vegetarianos por natureza?

Não. "O homem tem dentes pequenos e sistema digestivo curto, características de onívoros", afirma o antropólogo físico Walter Neves, da Universidade de São Paulo, maior especialista brasileiro em homens pré-históricos. Ou seja, nosso organismo está preparado para comer de tudo, inclusive carne. Somos como o chimpanzé, que, além de plantas, cata insetos, lagartos e roedores.

E diferentes do gorila, que só come plantas e, para isso, tem dentes molares imensos e uma barriga enorme (se você também tem uma, por favor não tome isso como uma comparação). Os dentes grandes servem para criar mais área de mastigação e, assim, triturar melhor as folhas e tirar delas os escassos nutrientes. A barriga abriga o intestino e o estômago, que são bem maiores para dar mais tempo ao organismo de absorver o que interessa.

Walter afirma que, num passado longínquo, nos alimentávamos como chimpanzés. Mas há 2,5 milhões de anos nossa dieta mudou. Começamos a fabricar instrumentos de pedra e as novas armas permitiram que incluíssemos no cardápio a carne de grandes mamíferos. Assim, nossa ingestão de proteína animal aumentou demais. "Sem isso, não teríamos desenvolvido um cérebro grande", diz Walter. O aumento súbito de proteína na dieta permitiu que nosso corpo investisse mais recursos no sistema nervoso.

Hoje, de 30% a 40% de tudo o que comemos vira combustível para fazer o cérebro funcionar. Sem o aumento na ingestão de carne, isso jamais seria possível.

Mas, na mesma época, surgiu um gênero de humanídeos estritamente vegetarianos. Conhecidos como Paranthropus, eles tinham grandes molares, eram barrigudos e não comiam animais de nenhuma espécie, nem insetos. Esses humanos vegetarianos conviviam com os humanos caçadores - há um lago no Quênia onde foram encontradas ossadas das duas espécies, com aproximadamente a mesma idade, a poucos quilômetros de distância.

O Paranthropus se extinguiu há 1,2 milhão de anos, provavelmente porque sua dieta mais restritiva o atrapalhou na competição com nossos ancestrais generalistas. Nossos primos vegetarianos deviam ser muito menos espertos que seus contemporâneos Homo, como atesta o tamanho de seu cérebro. "Eles investiram os recursos do organismo em dentes, os Homo investiram no cérebro", diz Walter.

Quer dizer que precisamos comer carne para raciocinar? Não. Há 2,5 milhões de anos era assim porque não sabíamos plantar e nossa dieta quase não incluía plantas protéicas. Os únicos vegetais que comíamos eram frutas, folhas e raízes. Hoje, é possível ter uma dieta rica em proteínas sem carne.

Vaca, a onipresente

Há quem diga que o problema de comer carne é moral: não teríamos o direito de matar para comer. Mas, se você acha que basta parar de comer carne para acabar com a matança, está enganado. Há muito mais produtos no mercado que incluem animais mortos do que imagina a nossa vã filosofia.

Para começar, boa parte da indústria de vestuário depende de animais. O couro, você sabe, é a pele de bichos abatidos. Para separar o fio de seda, é preciso ferver o bicho-da-seda. Além disoo, filmes fotográficos e de cinema são recobertos por uma gelatina, retirada da canela da vaca. Ou seja, um vegan radical só tira fotos digitais. Dos pés bovinos saem também substâncias usadas na espuma dos extintores de incêndio.

O sangue bovino rende um fixador para tinturas e a gordura acaba em pneus, plásticos, detergentes, velas e no PVC. Cremes de barbear, xampus, cosméticos e dinamite derivam da glicerina, substância que contém gordura bovina. A quantidade de medicamentos feitos com pedaços de gado, do pâncreas ao cordão umbilical, passando pelos testículos, é imensa.

Há um pouco das vacas também em vários produtos da indústria alimentícia - e não estamos falando só de bife à parmegiana. A gelatina deve a consistência ao colágeno arrancado da pele e dos ossos. Aliás, quase toda comida elástica contém colágeno - da maria-mole ao chiclete. Os queijos curados são feitos com uma enzima do estômago do bezerro.

Além dos bovinos, vários outros animais são usados pela indústria de comida. Vegans devem ficar de olho nos rótulos e evitar dois corantes: coxonilha e carmin. O primeiro, usado para tingir de azul, é feito de besouros moídos. O segundo, que pinta de vermelho, é feito de lesmas amassadas.

O planeta precisa de carne?

Na verdade, se todos fossem vegetarianos, é provável que não houvesse tanta fome no mundo. É que os rebanhos consomem boa parte dos recursos da Terra. Uma vaca, num único gole, bebe até 2 litros de água. Num dia, consome até 100 litros. Para produzir 1 quilo de carne, gastam-se 43 000 litros de água. Um quilo de tomates custa ao planeta menos de 200 litros de água.

Sem falar que damos grande parte dos vegetais que produzimos aos animais. Um terço dos grãos do mundo viram comida de vaca. No Brasil, o gado quase não come grãos - graças ao clima é criado solto e se alimenta de grama. Mas boa parte da nossa produção de soja, uma das maiores do mundo, é exportada para ser dada ao gado. Outra questão é que a pecuária bovina estimula a monocultura de grãos. Num mundo vegetariano haveria lavouras mais diversificadas e teríamos muito mais recursos para combater a fome.

E não se trata só de comida. A pecuária esgota o planeta de outras formas. "Para começar, ocupa um quarto da área terrestre e não pára de se expandir", diz o ativista vegetariano Jeremy Rifkin. A pressão para a derrubada das florestas, inclusive a amazônica, vem em grande parte da necessidade de pasto. Entre os danos ambientais causados pelo gado, está também o aquecimento global. Os gases da flatulência de bois e ovelhas - não, isso não é uma piada - estão entre os principais causadores do efeito estufa.

Como vimem - e morrem - os animais

Boi

No Brasil, os bois são criados soltos. Provavelmente, essa forma de criação é menos terrível que a de países frios do Cone Sul e da Europa, onde os invernos matam o pasto e fazem com que os animais fiquem fechados em áreas apertadas, comendo só ração. Isso não quer dizer que seja o melhor dos mundos. Os animais muitas vezes passam fome, vivem cheios de parasitas e apanham copiosamente. "O manejo no Brasil é muito bruto", diz o etólogo Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Jaboticabal, especialista no assunto.

Não existe aqui no Brasil a produção de vitela - carne muito branca e macia de bezerros mantidos em jaulas superapertadas para evitar que se movimentem. Para acentuar a brancura da carne, os criadores não permitem que o bezerro coma grama ou grãos, só leite - a dieta tem que ser pobre em ferro e em outros nutrientes, forçando uma anemia no animal. Com isso, torna-se necessário o consumo de antibióticos, para diminuir o risco de infecções do animal desnutrido. "A vitela deveria ser proibida no mundo inteiro", afirma o agrônomo e etólogo Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, especialista em técnicas de manejo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Para matar um boi, primeiro se dá um disparo na testa com uma pistola de ar comprimido. O tiro deixa o animal desacordado por alguns minutos. Ele então é erguido por uma argola na pata traseira e outro funcionário corta sua garganta. "O animal tem que ser sangrado vivo, para que o sangue seja bombeado para fora do corpo, evitando a proliferação de microorganismos", diz Ari Ajzenstein, fiscal do Serviço de Inspeção Federal (SIF), que zela para que as regras de higiene e de bons tratos no abate sejam cumpridas.

Em 1997, a ativista de direitos dos animais americana Gail Eisnitz escreveu o bombástico livro Slaughterhouse ("Matadouro", inédito no Brasil), no qual acusava os matadouros de sangrar muitos animais ainda conscientes. "Não vou dizer que isso não acontece no Brasil, mas não é freqüente", afirma Mateus Paranhos.

O abate a marretadas está proibido no país, o que não quer dizer que não aconteça - já que quase 50% dos abates são clandestinos e, portanto, sem fiscalização. O problema da marretada é que não é fácil acertar o boi com o primeiro golpe. Muitas vezes, são necessários dezenas para desacordá-lo.

Galinhas

Essas quase sempre levam uma vida miserável. Vivem espremidas numa gaiola do tamanho delas. As luzes ficam acesas até 18 horas por dia - assim elas não dormem e comem mais (isso acontece principalmente com as que produzem ovos). Seus bicos são cortados para que não matem umas às outras e para evitar que elas escolham que parte da ração querem comer - caso contrário, ciscariam apenas os grãos de seu agrado e deixariam de lado alimentos que servem para que engordem rápido.

A morte é rápida. As galinhas ficam presas numa esteira rolante que passa sob um eletrodo. O choque desacorda a ave e, em seguida, uma lâmina corta seu pescoço. O esquema é industrial. Hoje, nos Estados Unidos, são abatidas, em um dia, tantas aves quanto a indústria levava um ano para matar em 1930. Nas granjas de ovos, pintinhos machos são sacrificados numa espécie de liquidificador gigante. Parece horrível, mas é a mais indolor das mortes descritas aqui.

Porcos

Outros azarados. Não têm espaço nem para deitar confortavelmente. "São confinados do nascimento ao abate", diz Pinheiro Filho. As gestantes são forçadas a parir atadas a uma fivela, apertadas na baia. O abate é parecido com o de bovinos, com a diferença que o atordoamento é feito com um choque elétrico na cabeça e que o animal é jogado num tanque de água fervendo após o sangramento, para facilitar a retirada da pele. Gail Eisnitz afirma, em seu livro, que muitos porcos caem na água fervendo ainda vivos, mas isso provavelmente é incomum.

Patos e gansos

Os mais infelizes dos nossos alimentos provavelmente são os gansos e patos da França. O foie gras, um patê tradicional e sofisticado, é feito com o fígado inflamado das aves. Os produtores colocam um funil na boca delas e as entopem de comida por meses, fazendo com que o fígado trabalhe dobrado. Isso provoca uma inflamação e faz com que o órgão fique imenso, cheio de gordura. Ou seja, o patê, na prática, é uma doença. Há movimentos pedindo o banimento do produto. Não se produz foie gras no Brasil.

E o que fazer a respeito?

Há uma verdade inescapável: ao comermos carne, somos indiretamente responsáveis pela morte de seres que têm pai, mãe, sofrem, sentem medo. "Os vertebrados sentem dor", diz Rita Paixão, fisiologista e bioeticista da Universidade Federal Fluminense. Isso é um fato e, se você pretende continuar comendo carne, é bom se acostumar com ele. Mas podemos ao menos minimizar o sofrimento, escolhendo comidas que impliquem em menos crueldade. O mercado oferece alternativas.

Uma delas são os ovos caipiras, produzidos por galinhas criadas soltas, em companhia de galos, sob o sol - um desinfetante natural -, comendo o que querem com seus bicos inteiros. A maior granja brasileira de ovos caipiras é a Yamaguishi, que distribui "ovos da galinha feliz" pela região de Campinas e em São Paulo. "Os ovos que nós produzimos... quer dizer, que nossas galinhas produzem", diz Marcelo Minutti, gerente da granja, "são mais saborosos e não contêm substâncias químicas."

Frangos caipiras, criados em condições semelhantes, também já são encontrados nos supermercados. Sua carne é mais dura, mas é mais saborosa e a chance de conter substâncias perigosas, como hormônios e antibióticos, é mínima. A rede Carrefour, graças a uma política da sede francesa, é uma das que oferece o produto. Ele faz parte da linha "garantia de origem", só de produtos feitos com essa preocupação.

Os bois certificados com "garantia de origem" são bem alimentados e criados por pessoas treinadas por especialistas em comportamento animal para entender como ele pensa e manejá-lo sem violência. "Agora vamos produzir porcos com origem garantida, criados soltos", diz o veterinário Adolfo Petry, responsável, no Carrefour, pelos produtos animais garantidos com o selo. Produtos assim custam entre 50% e 100% a mais que os convencionais. Apesar do interesse crescente do consumidor em diminuir a crueldade (numa pesquisa feita pela Super na internet, 85% das 2408 pessoas disseram que deixariam de comer alimentos se soubessem que eles causam sofrimento para animais), a procura por esses produtos ainda é muito pequena.

A vaca e a humanidade

A criação de gado foi uma das maiores forças ditando os rumos da humanidade. Essa é a opinião do escritor Jeremy Rifkin, ativista polêmico, vegetariano convicto e pesquisador competente - um dos maiores críticos da biotecnologia e, por tabela, um dos maiores inimigos do establishment científico. Rifkin, em seu Beyond Beef ("Além da carne", sem versão em português), mostra que devemos muitas coisas importantes ao hábito de criar vacas para matar. Veja algumas delas:

Deus

Algumas das primeiras pinturas nas cavernas representavam vacas. Devemos à carne nossas primeiras manifestações artísticas e, possivelmente, a origem das nossas religiões - essas pinturas são o primeiro registro de uma humanidade preocupada com o mundo espiritual, acertando as contas com os animais que matava.

Diabo

As tribos nômades de cavaleiros que habitavam a Eurásia há 6 000 anos juntavam gado selvagem e o criavam nos pastos naturais. Esses pastores cultuavam um deus-touro, chamado Mithra, símbolo da força, da masculinidade, do poder. A necessidade de pastos novos a cada vez que acabava o antigo fazia deles expansionistas por natureza e, no início da era cristã, eles já tinham se espalhado da Índia a Portugal. Com isso, o culto a Mithra tornou-se muito popular no Império Romano. Para contê-lo, a Igreja adotou sua data sagrada, o dia de Mithra - 25 de dezembro. Estava estabelecido o Natal. Depois, no Concílio de Toledo, em 447, a Igreja publicou a primeira descrição oficial do diabo, a encarnação do mal: um ser imenso e escuro, com chifres na cabeça. Como Mithra.

Grandes navegações

Na Idade Média, a carne raramente era fresca e, por isso, havia muita demanda de temperos para disfarçar o sabor. Ao mesmo tempo, tinham se esgotado os pastos da Europa - não havia mais para onde levar os rebanhos crescentes. Resultado: os europeus caíram no mar em busca de um caminho para as especiarias indianas e de espaço para soltar os bois. Acharam mais espaço do que imaginavam: a América. Hoje, Estados Unidos, Brasil, Uruguai e Argentina têm alguns dos maiores rebanhos do mundo.

Conquista do Oeste

Em 1870, boa parte dos Estados Unidos tinha se transformado em pasto. Mas havia um obstáculo para a expansão. Os campos do oeste americano estavam tomados por hordas de búfalos, que serviam de caça para as tribos indígenas. O governo americano não queria os búfalos, difíceis de manejar, e temia os índios. Adotou, então, uma solução simples: matar os búfalos e, assim, deixar os índios sem comida. É assim que Rifkin resume a heróica "conquista do Oeste".

Naquela década, matar búfalo foi o que mais se fez na região. Havia "excursões turísticas" nas quais um trem emparelhava com manadas e os passageiros começavam a atirar. As carcaças eram abandonadas ao longo da ferrovia. Cowboys como Buffalo Bill se tornaram lendários por matar até 40 búfalos numa caçada. Em dez anos, as manadas, que eram tão grandes que levavam horas para passar, sumiram. Em 1881, a tradicional Dança do Sol da tribo kiowa foi adiada por dois meses porque os índios não conseguiam encontrar um só búfalo para o sacrifício ritual. Finalmente, acharam um animal solitário e o mataram. No ano seguinte, não encontraram nenhum.

Indústria moderna

No final do século XIX surgiu uma novidade na indústria da carne: a esteira rolante. Em vez de depender de um açougueiro habilidoso, o matadouro podia usar vários funcionários pouco especializados, cada um fazendo um pouco do trabalho, enquanto a carcaça se movia sozinha. Uma "linha de desmontagem". Um dia, um mecânico que vivia em Detroit foi visitar essa linha. Anos depois, esse mecânico admitiria que a indústria do abate foi uma forte inspiração para a sua própria fábrica, batizada em 1903 com seu sobrenome. O nome desse mecânico? Henry Ford.

Agora é com você. O que vai ser? Brócolis ou cheeseburger?

Para saber mais
Na livraria:Beyond Beef, Jeremy Rifkin, Plume, Estados Unidos, 1993
Slaughterhouse, Gail A. Eisnitz, Prometheus, Estados Unidos, 1997
País Fast Food, Eric Schlosser, Ática, São Paulo, 2002
O Homem que Comeu de Tudo, Jeffrey Steingarten, Companhia das Letras, São Paulo, 2000

Derrick Green, vocalista do Sepultura: "Você é o que come!"

Link deste artigo: http://www.vista-se.com.br/artigos.htm#sepultura
Link da original: http://whiplash.net/materias/news_908/043067-sepultura.html

Derrick Green, vegetariano.

Derrick Green, líder do SEPULTURA, sentou com o PETA (People For The Ethical Treatment of Animals, ou, "Pessoas a Favor do Tratamento Ético de Animais") para discutir os direitos dos animais, vegetarianismo e o conceito sobre o controverso vídeo do Sepultura, “Convicted in Life”. Alguns trechos da conversa seguem abaixo:

PETA: O que o fez torna-se vegetariano?

Derrick: Eu tenho vários amigos que eram de New York e trabalhavam em diferentes lojas de comidas saudáveis, e eles me deram os nomes de vários livros para dar uma olhada nos direitos dos animais. Era uma coisa que eu realmente queria testar. Eu tinha sempre comido carne minha vida inteira, e nunca tinha questionado isso até aquele momento da minha vida quando comecei a questionar um monte de coisas. Experimentei não comer mais carne. E depois de um tempo, eu não tinha mais o desejo de comer carne. Eu apenas abri a minha mente para isso e continuei assim.

PETA: Isso é ótimo. Quais livros mais te influenciaram?

Derrick: Existia um livro, ‘Diet for a New America’, e um outro de Upton Sinclair chamado ‘The Jungle’. Esses são dois livros que realmente abriram os meus olhos para parar de comer carne. Apenas pela descrição daquele matadouro, a falta de preocupação das pessoas que trabalhavam lá, e a maneira como elas descreviam, como um fábrica da morte.

PETA: Sim – muitas pessoas não vêem este lado da indústria.

Derrick: Certo. Nosso novo vídeo, ‘Convicted in Life’, mostra um pouco do que está acontecendo nesta indústria. Você é o que come. Como um karma: O que você faz na sua vida pode afetar na sua pós-vida. O vídeo meio que segue essa linha. O vídeo contém cenas tiradas de um DVD, "A Carne é Fraca", que eu assisti sobre a indústria de carne no Brasil. Foi extremamente chocante pra mim, pois todos sempre dizem como a carne é limpa e blá, blá, blá e como a indústria é ótima. Então foi bastante esclarecedor. Fomos sortudos o bastante de poder entrar em contato com o pessoal que fez o documentário, e eles nos deram a permissão de usar algumas das imagens.

Vídeo: Convicted in Life, Sepultura, com cenas do documentário "A Carne é Fraca".

PETA: A cena do metal não é geralmente associada com os direitos dos animais, então eu estava pensando: por que você acha que os seus fãs deveriam se interessar por vegetarianismo e pelo direito dos animais?

Derrick: Eu acho que o direito dos animais é importante porque você realmente pode dizer como uma sociedade é civilizada pela maneira como ela trata os animais – tudo está conectado. E essa compaixão é muito importante. Digo, mesmo sendo jovem, é importante aprender a ter compaixão pelas outras coisas, especialmente organismos vivos. Então, é muito importante ter esse respeito e conhecimento sobre os outros animais e outras pessoas também.

PETA: Você tem algum conselho para alguém que pensa em se tornar vegetariano?

Derrick: Eu iria definitivamente dizer para ler o máximo possível e descobrir o que o seu corpo precisa, e também para experimentar diferentes tipos de cozinhas vegetarianas de diferentes partes do mundo. Tentem descobrir um balanceamento, pois muitas pessoas podem se sobrecarregar comendo apenas besteira e não conseguindo a energia ou proteína que realmente precisam.

Vegetarianismo. O que é?
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Vegetarianismo é um regime alimentar baseado fundamentalmente em alimentos de origem vegetal. Os vegetarianos excluem da sua dieta carne, bem como alimentos derivados (ex., gelatina feita com base em ossos animais). Os ovolactovegetarianos consomem também ovos, e os lacto-vegetarianos leite e lacticínios.

Os vegetarianos estritos excluem da sua alimentação todo e qualquer alimento de origem animal, ou com ingredientes de origem animal. Os veganos excluem todos os produtos de origem animal não só da sua dieta como de tudo o que consomem, incluindo cosméticos, vestuário e calçado, entre outros produtos.

O nome vegetariano não origina da base da alimentação vegetal mas da expressão latina "vegetus", que significa "forte", "vigoroso", "saudável".

A União Vegetariana Internacional define vegetarianismo como "a prática de não comer carne, aves, peixes ou seus subprodutos, com ou sem uso de laticínios e ovos."

Razões para uma dieta vegetariana

Há diversas razões que levam uma pessoa a adoptar uma dieta vegetariana, designadamente as seguintes: de saúde, ecológicas, éticas, econômicas e religiosas.

Razões de Saúde

Por aconselhamento médico ou por auto-iniciativa, esta é uma motivação para muitas pessoas seguirem um regime vegetariano. Uma dieta vegetariana equilibrada é geralmente eficaz em equilibrar os níveis de colesterol, reduzir o risco de doenças cardio-vasculares e também evitar alguns tipos de cancro (Câncer), entre outras razões. Outro aspecto relevante prende-se com a qualidade dos produtos animais que chegam ao mercado. Os animais criados para consumo humano são alimentados com uma quantidade significativa de hormonas de crescimento e antibióticos para resistirem às doenças, sendo a carne que chega à mesa, muitas vezes, de má qualidade. Por outro lado, a poluição dos mares e rios torna o peixe igualmente inseguro. Um terceiro ponto, nas razões de saúde, são as recorrentes crises da indústria alimentar, como a das vacas loucas ou a da gripe aviária, que levam muitas pessoas a adoptar uma dieta diferente.

Razões ecológicas

A motivação aqui é racionalizar a utilização dos recursos naturais para a obtenção de alimentos. Um vegetariano reduz um elo da cadeia alimentar, tornando-a mais eficiente e, consequentemente, reduzindo o impacto ambiental da sua alimentação. Para produzir carne é necessário cultivar plantas, que alimentam o gado, que por sua vez irá alimentar o Homem. Durante o passo de alimentação do gado foram gastos recursos como a água, energia e tempo, que poderiam ter sido poupados se o Homem consumisse directamente os vegetais. Exemplo: Para produzir 1 kg de carne bovina são gastos aproximadamente 15 mil litros de água (incluindo a rega das plantas, a higiene do animal, etc); para produzir 1kg de soja são gastos menos de 1300 litros de água, cerca de 10%. A economia de água é, portanto, superior a 90%, sem que o bife traga necessariamente um valor acrescentado significativo relativamente ao cereal.

Razões éticas

Muitos vegetarianos não concebem o homem como superior ao animal, do ponto de vista do direito à vida. Ou seja, não é justo tirar a vida a um animal para alimentar uma pessoa, especialmente quando a vida dessa pessoa não depende da vida do animal. Portanto, devem co-existir os dois. Outro aspecto prende-se com a forma como os animais são tratados. Os animais produzidos pela indústria agro-pecuária moderna são confinados em pequenos espaços, alimentados de forma artificial e tratados por vezes de forma brutal durante o transporte ou antes do abate.

Razões econômicas

A base alimentar do vegetarianismo consiste em alimentos de um nível inferior da cadeia alimentar, os legumes, frutos e grãos, mais baratos do que a carne ou o peixe, quando de qualidades comparáveis. Os alimentos vegetarianos processados, como o tofu ou o seitan são muitas vezes produzidos pelos próprios consumidores em casa. As razões econômicas não costumam, isoladamente, motivar uma pessoa a adoptar a dieta vegetariana, mas contribui muitas vezes, a par de outras motivações, para a mudança de regime alimentar, ou a sua manutenção.

Razões espirituais

As motivações religiosas são, muitas vezes, revestidas de grande complexidade. Budistas, Hindus e Adventistas do Sétimo Dia são tipicamente conotados com o vegetarianismo, mas as motivações não são necessariamente imposições religiosas (isto é, comer carne não é necessariamente visto como um pecado, por exemplo). Muitos Budistas preferem a dieta vegetariana porque defendem a não-violência, o que é, portanto, uma motivação ética. Muitos Adventistas escolhem e aconselham a dieta vegetariana porque a vêem como mais saudável e, portanto, vantajosa para o corpo terreno - o que é, consequentemente, uma motivação de saúde.

Fonte: Wikipédia

CARNE DE VITELA ou BABY-BEEF
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A carne de vitela é muito apreciada por ser tenra, clara e macia. O que pouca gente sabe é que o alimento vem de muito sofrimento do bezerro macho, que desde o primeiro dia de vida é afastado da mãe e trancado num compartimento sem espaço para se movimentar. Esse procedimento é para que o filhote não crie músculos e a carne se mantenha macia.

Baby beef é o termo  que designa a carne de filhotes ainda não desmamados.

O mercado de vitelas nasceu como subproduto da indústria de  laticínios que não aproveitava grande parte dos bezerros nascidos das vacas  leiteiras.Veja como é obtido esse 'produto':

Assim que os filhotes nascem, são separados de suas mães, que permanecem por semanas mugindo por suas crias.
Após serem removidos, os filhotes são confinados em estábulos com dimensões reduzidíssimas onde permanecerão por meses em sistema de ganho de peso, alimentação que consiste de substituto do leite materno.

Um dos principais métodos de obtenção de carne branca e macia, além da imobilização total do animal para que não crie músculos, é a retirada do mineral ferro da sua alimentação tornando-o anêmico e fornecendo o mineral somente na quantidade necessária para que não morra até o abate.

A falta de ferro é tão sentida pelos animais, que nada no estábulo pode ser feito de metal ferruginoso, pois eles entram em desespero para lamber esse tipo de material.

Embora sejam animais com aversão natural à sujeira, a falta do mineral faz  com que muitos comam seus próprios excrementos em busca de resíduos desse mineral. Alguns produtores contornam esse problema colocando os filhotes sobre um ripado de madeira, onde os excrementos possam cair num um piso de concreto ao qual os animais não tenham acesso. A alimentação fornecida é líquida e altamente calórica, para que a maciez da carne seja mantida e os animais engordem rapidamente. Para que sejam  forçados a comer o máximo possível, nenhuma outra fonte de líquido é fornecida, fazendo com que comam mesmo quando têm apenas sede.

Com o uso dessas técnicas, verificou-se que muitos filhotes entravam em desespero,criando úlceras pela sua agitação e descontrole no  espaço reduzido.

Uma solução foi encontrada pelos produtores: a ausência de luz; a manutenção dos animais em completa escuridão durante 22 horas do dia, acendendo-se a luz somente nos momentos de manutenção do estábulo.

No processo de confinamento, os filhotes ficam completamente imobilizados, podendo apenas mexer a cabeça para comer e agachar, sem  poderem sequer se deitar. Os bezerros são abatidos com mais ou menos 4 meses de vida, de uma vida de reclusão e sofrimento, sem nunca terem conhecido a  luz do sol.

E as pessoas comem e apreciam esse tipo de carne sem terem idéia de como é  produzida.

A criação de vitelas é conhecida como um dos mais imorais e repulsivos mercados de animais no mundo todo. Como não há no Brasil lei específica que proíba essa prática - como na Europa - o jeito é conscientizar as pessoas sobre a questão.

Nossa arma é a informação. Se souber o que está comendo, a sociedade que já não mais tolera violências vai mudar seus hábitos.   Podemos evitar todo esse sofrimento não comendo carne de vitela ou Baby-beef e repudiando os restaurantes que a servem.

O consumidor (assim como o eleitor) tem força e deve usar esse poder escolhendo produtos, serviços e empresas que não tragam embutido o sofrimento de animais inocentes.
 
Fonte: Instituto Nina Rosa - Projetos por Amor à Vida - Se você anseia por  uma sociedade mais humana e sem violência, repasse esse e-mail.

A VIDA AGRADECE.

Profª Maria de Lourdes Pereira Dias
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA - CSE/CNM - Campus Universitário
Trindade
88.040.900 - Florianópolis (SC) - B R A S I L

Parar de comer carne pode salvar a Amazônia?
Link deste artigo: http://www.vista-se.com.br/artigos.htm#amazonia
Link da Revista: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG77074-6010-466-1,00.html

Militantes e cientistas afirmam que a pecuária bovina está destruindo as florestas e propõem um boicote
por Juliana Arini

APETITE
Meirelles no Mercado Ver-o-Peso,
em Belém.
Ex-administrador de fazendas,
ele largou o negócio para militar
contra a carne

João Meirelles Filho pertence à terceira geração de pecuaristas em sua família. Formado em Administração, passou dez anos gerindo fazendas de gado em Mato Grosso do Sul. No fim da década de 90, sua carreira mudou. Com a chegada do ecoturismo à região, Meirelles acordou para os impactos ambientais de algumas atividades, como a pecuária. Deixou de comer carne. Largou as fazendas e mudou-se para Belém, onde fundou uma ONG para defender a Amazônia. Hoje, vegetariano, é um dos que pregam a redução no consumo de carne bovina para salvar a floresta. "Parei de comer carne aos 40 anos", diz. "É prova de que qualquer um pode mudar seus hábitos."

Meirelles faz parte de um movimento que cresce em todo o mundo. Para essas pessoas, os bifes de nossas refeições diárias são a causa da destruição de vários ecossistemas naturais, como a Amazônia. É uma idéia incômoda, mas tem lógica. Afinal, 78% do desmatamento na Amazônia aconteceu para abrir espaço para os pastos, segundo o Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O argumento é que, se o consumo de carne cair, também se reduz a pressão para expansão dos pastos sobre a floresta. Mas reduzir o consumo de carne - ou boicotá-la - vai mesmo preservar a floresta?


 

Os pecuaristas desmataram uma área equivalente ao Estado de Minas Gerais na Amazônia

Parar de comer carne sempre foi a bandeira dos vegetarianos. Suas razões eram principalmente a saúde humana e os direitos dos animais. Hoje, o foco mudou. "Agora o meio ambiente pesa na decisão de não comer carne", diz o biólogo Sérgio Greif, da Sociedade Vegetariana Brasileira. Um dos pioneiros nessa nova onda foi o pesquisador britânico Norman Myers, da Universidade de Oxford, um dos mais respeitados naturalistas do mundo. Na década de 80, criou o termo"Conexão Hambúrguer" para ligar o consumo de carne nas redes de fast-food dos Estados Unidos à destruição das florestas na América Central.


Um dossiê inspirado no termo de Myers foi feito em 2003 pelo Centro para Pesquisa Florestal Internacional, desta vez sobre a Amazônia. De lá para cá, a causa só cresceu.

Um dos mais expoentes adeptos da campanha por menos carne e mais florestas é o biólogo americano Edward Wilson, da Universidade Harvard. Segundo ele, só será possível alimentar a população mundial no fim do século, estimada em 10 bilhões de pessoas, se todos forem vegetarianos. "O raciocínio é matemático", diz Greif. Para ele, alimentar os bois com pasto ou grãos é o meio menos eficiente de gerar calorias. A produção de grãos de uma fazenda com 100 hectares pode alimentar 1.100 pessoas comendo soja, ou 2.500 com milho. Se a produção dessa área for usada para ração bovina ou pasto, a carne produzida alimentaria o equivalente a oito pessoas. A criação de frangos e porcos também afeta as florestas. Para alimentar esses animais, é necessário derrubar árvores para plantar soja e produzir ração. Mas, na relação custo-benefício entre espaço, recursos naturais e ganho calórico, o boi é o pior.

O gado tem sido considerado o grande vilão da Amazônia. Hoje, o Brasil mantém 195 milhões de bovinos. Há mais bois que pessoas. Cerca de 35% desse rebanho está na Amazônia. Para alimentar o gado, os pecuaristas desmataram uma área de 550 quilômetros quadrados, o equivalente ao Estado de Minas Gerais. Criados livres no campo, sem ração,