Missão Impossível
por Rafael Bán Jacobsen
É com grande pesar que redijo estas linhas. Na verdade, tenho uma boa e uma má notícia. A má: sinto comunicar a todos que decidi abandonar o vegetarianismo. A razão é simples: levar o vegetarianismo a sério está muito além das minhas forças. Mas existe a boa notícia: não, eu não vou voltar a comer carne. Sei que parece confuso, mas explico: não vou comer carne e nem vegetais – não vou comer é nada. Desisti.
Logo que comecei a pensar por mim mesmo com certa maturidade, incluí o vegetarianismo entre meus princípios pessoais básicos, principalmente por respeito aos animais não-humanos. Em pouquíssimo tempo, porém, descobri que deixar de comer carne não adiantava muito: a indústria da exploração era um só, com as mesmas práticas cruéis e imorais, fosse para produzir um bife, uma dúzia de ovos, uma caixinha de leite longa vida, um sapato de couro, um sabonete e milhões de outras coisas. Resultado: tornei-me vegano – nenhum produto de origem animal cruzaria os meus umbrais!
Pois bem, estava feliz com minha escolha, usufruindo de tudo de bom que uma vida sem crueldade pode oferecer. Todavia, não tardei a me dar conta de que ser vegetariano (ou vegano) envolvia muitas outras coisas: de que adiantava um vegano doente, ou muito magro, ou muito gordo? Seria uma enorme contra-propaganda para a causa. Além disso, que sentido haveria em respeitar todos os animais exceto eu mesmo, apelando, por idealismo, para uma dieta sem produtos animais mas pouco balanceada? Ademais, um vegetariano de verdade deve se preocupar com o meio ambiente como um todo, tem a obrigação agir com coerência em sua postura de viver eticamente. Era, portanto, urgente fazer novas mudanças em minha vida.
Circulando pela “cena vegetariana”, seguia minha estrada, tendo contato com os mais diferentes grupos de indivíduos adeptos dessa filosofia de vida. Conheci o movimento Straight Edge e, então, descobri o absurdo que é o consumo do álcool. O fato é que o punk no começo (em grande parte) via o consumo de drogas como parte integrante de um estilo de vida alternativo. O Straight Edge não concorda com essa associação. Ao mesmo tempo em que as drogas e o álcool eram exaltados no punk, alguns já percebiam que seu uso só trazia coisas ruins ao movimento: menores de idade eram excluídos dos shows pois as casas vendiam álcool, bêbados sempre causavam brigas, membros talentosos e inteligentes de bandas morriam ou se tornavam zumbis apáticos de tanto se drogar, e por aí vai. Para eles, parte da atitude “faça você mesmo” do punk envolvia o indivíduo ter pleno controle de seu corpo, mente e atitudes, e, para isso, as drogas eram um obstáculo. Nem preciso dizer que, de pronto, me despedi da cerveja, do vinho, da vodka, de todos fermentados e destilados possíveis e imagináveis.
Foi quando caiu em minhas mãos um livrinho, o Sugar Blues. Lendo-o, descobri que o consumo de açúcar é um dos hábitos mais nefastos para a saúde, adquirindo contornos de síndrome. Segundo o livro, a síndrome do consumo de açúcar é simples de explicar e muito mais fácil de sentir. Todo o problema do açúcar começa no seu tempo de digestão, que, por ser extremamente rápido, provoca descargas incríveis de insulina no pâncreas e de adrenalina no cérebro. Horas depois de farta ingestão de açúcar, sobrevém o cansaço, a moleza, a enxaqueca, momento em que o consumidor viciado sente vontade de novamente ingerir a sua droga (o açúcar), para refazer um novo ciclo eufórico-depressivo. Todas essas informações caíram sobre minha cabeça feito uma bigorna, e eu aboli o consumo do dito cujo.
Não demorou muito para eu perceber que, em minha busca por ser um vegetariano mais consciente, eu falhava no que havia de mais óbvio: a utilização de industrializados. Em primeiro lugar, a esmagadora maioria deles é empapuçada de conservantes, corantes, aromatizantes, geleificantes, espessantes, e centenas de outros “antes”, que, além de fazerem um tremendo estrago no organismo, foram muito provavelmente testados em animais. Para continuar o drama, basta notar que a maior parte é feita por multinacionais malvadas e inescrupulosas que, além de explorarem animais não-humanos, exploram animais humanos, não possuem qualquer consciência ecológica e adotam práticas predatórias de competição por mercado. Passei a comprar as minhas verduras, frutas e legumes apenas de pequenos produtores orgânicos (sim: seria muito esdrúxulo abolir todos os tais “antes” e continuar ingerindo doses maciças de agrotóxicos, pesticidas, fertilizantes artificiais etc.).
Então, me dei conta de que alguns alimentos mereciam atenção especial.
Em meu contato com a ayurveda, deparei com verdades interessantes e milenares. Na ayurveda, os alimentos são separados em grupos com propriedades específicas. As assim chamadas Vajikaranas, por exemplo, podem ser utilizadas para melhorar a vitalidade sexual ou dirigir internamente a energia sexual com objetivo de regeneração. A maioria desses alimentos não é afrodisíaca simplesmente porque estimula a atividade sexual por irritação dos órgãos sexuais; muitos são tônicos e, de fato, criam e nutrem diretamente os tecidos reprodutivos. Começando no sistema reprodutivo, eles revigoram o corpo inteiro, da mesma maneira que uma árvore é revigorada a partir das raízes. Um efeito colateral é que estimulam chakras inferiores e atrapalham a meditação. Devem ser, portanto, usados como medicamento, e não consumidos diariamente como tempero e parte da alimentação usual. Entre os afrodisíacas típicos (Vajikaranas) estão: aspargos, cravo-da-índia, alho, ginseng, cebola, açafrão e inhame. Alguns desses, como a cebola e o ginseng, mais gravemente, estão também entre os alimentos Shukrala, que tonificam e nutrem as secreções reprodutivas, como o sêmen e o leite materno. Definitivamente, o mau hábito de comer todos esses itens a rodo precisava ser revisto, em especial o alho e a cebola. Cortei-os, pois.
Foi assim também com o espinafre. Um nutrólogo amigo meu, certa vez, comentou a respeito dos estudos da professora doutora Jocelem Salgado, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais. Sua pesquisa teve como objetivos verificar se determinadas plantas podiam ser utilizadas na dieta humana, sem causarem prejuízos à saúde e ao bem-estar do indivíduo. Em artigo, a doutora ressaltou que as folhas estudadas foram adquiridas no comércio local e a folha de espinafre foi também adquirida de outros dois locais: da Fazendinha da Unimep e da horta do Departamento de Horticultura da Esalq/USP. Em seguida foram lavadas, secadas em estufa e moídas. A partir daí, foram acrescentadas nas dietas, avaliadas durante o ensaio experimental com duração de 30 dias. A conclusão de Jucelem foi aterradora: “Os ratos alimentados com espinafre morreram na primeira semana de experiência, de disfunção renal. Usamos plantas sem agrotóxicos e as cozinhamos. O resultado se repetiu. Não é só a presença de ácido fítico e oxálico que preocupa. Há outras substâncias que podem ter causado a morte dos animais e um episódio de morte de vários recém-nascidos alimentados com leite e espinafre, em 1951, nos EUA. A doença conhecida como doença do branco do olho azul, pois o branco dos olhos ficava dessa cor, foi encoberta e o desenho do Popeye continuou a ser exibido. Claro que existe a suscetibilidade individual, mas, diante do incerto, é melhor substituir.” Segui a risca esse conselho final da doutora.
Depois, foi a vez da batata. Em uma bela manhã de sábado, fazendo compras na feirinha agroecológica, um velho hippie, que eu conhecia de vista, parou para conversar comigo. Começamos a falar de vegetarianismo e hábitos alimentares em geral. De repente, ele me fuzilou com a pergunta: “Você come batata?”. Respondi que sim, sacudindo os ombros. Sua expressão anuviou-se, era algo indefinível, oscilando entre espanto (talvez medo) e pena. “Você não sabia que os nativos aqui da América usavam a batata para matar os europeus conquistadores?”, indagou ele. Eu estava incrédulo e ironizei: “Só se fosse atirando-as com fundas na cabeça dos coitados!”. O hippie sessentão fitou-me com ainda mais gravidade e sentenciou: “Vá brincando para ver o que acontece.” Confesso que cheguei em casa assustado. Para sanar qualquer dúvida, fui à caça de informações. Eis que encontro a chave do mistério, duas palavrinhas mágicas: índice glicêmico. Segundo as tabelas nutricionais, a batata tem um dos mais altos: 129. Alimentos com alto índice glicêmico fazem o açúcar entrar depressa no corpo. Só que ele também sai rapidinho. O pâncreas, então, é obrigado a produzir muita insulina de uma só vez. Em excesso, o hormônio diminui o nível de glicose. Daí a fome aparece antes da hora, facilitando a obesidade. Além disso, o sobe-e-desce da glicemia obriga o pâncreas, encarregado de despejar a insulina, a viver numa montanha-russa, e qualquer falha nesse processo pode dar origem ao diabete, uma das doenças mais cruéis e torturantes que existe. Não precisei ler mais uma vírgula sequer.
Nessa mesma época, vieram duas das mudanças mais difíceis para mim: abrir mão da soja e do glúten.
A soja é o capeta em forma de grão. Para começar, o que dizer das infindáveis monoculturas de soja que devastam ecossistemas nativos e tomam na marra o lugar da nossa Amazônia, por exemplo? Alguns ponderariam que 80% ou mais da soja ali produzida tem por destino o mercado internacional, especialmente para a confecção de ração pra animais confinados. Ou seja: nós, vegetariano, não teríamos nada a ver com isso. Não me convenci muito. Recordei a frase do Mahatma Gandhi: “Seja você mesmo a mudança que deseja ver no mundo.” Com essa máxima em mente e eivado da mais legítima generosidade vegetariana, decidi que não queria tomar parte, por menor que fosse, em toda essa devastação. Como se isso não bastasse, recebi um e-mail que desnudava a verdade sobre a soja e seus impactos na saúde. Dizia que a comunidade científica internacional independente (ou seja, aqueles pesquisadores cujos estudos não são patrocinados pela parte interessada) vem há anos denunciando a soja como um anti-nutriente e causadora de muitos males. O texto destacava a interferência no hormônio da tireóide e os efeitos estrogênicos apresentados pela genisteína, uma substância encontrada nas isoflavonas da soja e que causaria os mesmos males que os hormônios modificados, pois é uma espécie de pseudo-estrogênio. Falava, ainda, de outras alterações no metabolismo humano. Adeus, tofuzinho!
O glúten? Sim, claro. Nosso divórcio foi motivado pela minha incursão no estudo da nutrição funcional. Pesquisando sobre o tema, li em um site que há tempos médicos e nutricionistas sabem que o glúten, uma substância encontrada no trigo, na cevada e na aveia, transforma-se numa espécie de cola quando chega ao intestino e gruda nas paredes intestinais, provocando, aos poucos, saturação do aparelho digestivo, aumento da gordura visceral (na região do abdômen), dores articulares, alergias cutâneas, enxaqueca e depressão. Os resultados do grande consumo de glúten pela população já aparecem nos consultórios de nutrólogos, alergistas e nutricionistas: obesidade, síndrome de resistência à insulina, deficiência de cálcio, alergias, diarréias, doenças auto-imunes. Pães, biscoitos, macarrão, bolos: fiquei um bom tempo sem eles, até aprender novas versões em livros de receitas especiais para celíacos.
Achei que havia, enfim, encontrado o caminho ideal quando descobri o crudivorismo. A alimentação crudívora, também chamada de “alimentação viva” ou “comida viva”, é uma forma de alimentação baseada em alimentos crus, frutos frescos e secos, vegetais, sementes, grãos germinados e algas. Um livro a respeito do tema afirmava que os alimentos crus são ricos em enzimas – responsáveis por toda a construção do nosso organismo. As enzimas são os incansáveis trabalhadores que levam os nutrientes às nossas células. Podemos dizer que a alimentação crua é uma alimentação enzimática. Ao cozermos os alimentos, destruímos as enzimas. Se comermos alimentos crus, evitamos a destruição das enzimas que a própria comida contém, facilitando, assim, a digestão e evitando gastar as nossas próprias reservas. Segundo o Dr. Edward Howell (um dos principais e o primeiro pesquisador das enzimas), a falta de enzimas na comida cozida é ainda uma das maiores razões do envelhecimento e morte precoce. É ainda a causa subjacente da maior parte das doenças. A razão é simples: se o nosso corpo está ocupado com a digestão de alimentos cozidos e a produção de enzimas para a saliva, suco gástrico, suco pancreático e sucos intestinais, então terá que diminuir a produção de enzimas para outros propósitos. Quando isso acontece, como pode o corpo produzir enzimas para o trabalho do cérebro, coração, rins, músculos e os outros órgãos e tecidos? Para mim, fazia muito sentido. Aposentei o fogão.
Mas minha alegria durou pouco. Por um desses acasos da vida, conheci a macrobiótica, uma alimentação baseada na filosofia oriental dos opostos complementares (polaridade ying e yang), base e essência do universo. O segredo dessa dieta que promove a boa saúde e a longevidade está em buscar o equilíbrio entre esses pólos. Nela, dá-se muita importância ao uso do fogo (alimentos cozidos), responsável pela evolução da humanidade. Alimentos crus e frutas são consumidos em menor quantidade, e evita-se o consumo excessivo de líquidos, pois tais elementos são muito ying. Em resumo: uma dieta exclusivamente crua é bastante desequilibrada. Ying demais e yang de menos não poderia dar coisa boa.
Pensei em voltar a cozinhar os alimentos (os poucos que ainda restavam em minha lista pessoal de itens permitidos). Mas e as enzimas? Tantos dados conflitantes! Foi a gota d´água. Já não havia mais como gerir meu vegetarianismo com a competência e a seriedade necessárias. Convenci-me de que não importa que tipo de vegetarianismo eu siga, ele sempre será falho demais; sempre haverá um tal alimento que causa não-sei-o-quê, uma raiz sorrateira a detonar meu corpo etéreo, as sementes de uma fruta que causam câncer. Bom mesmo é comer a casca – ou será evitar a casca por causa dos agrotóxicos? Melhor comer cru para não matar as enzimas do alimento – ou devo cozinhar tudo para não desequilibrar a harmonia do ying e yang?
Tomei a única medida cabível: renunciei a todo tipo de alimento. Li em algum lugar que é possível viver sem ingerir um grama do que quer que seja, e existem pessoas assim: os respiratorianos. Mas li também que é necessário passar por uma série de estágios para chegar lá. Não quero saber de estágios: parei de comer hoje ao meio-dia e não pretendo voltar. Mesmo que eu quisesse, não saberia o que comer. Esgotaram-se minhas possibilidades. Ser vegetariano virou missão impossível.
Mas não se preocupem. Estou me sentindo bem.
Até a próxima coluna – espero!
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