Questões de definição. Vegetarianismo, gênero e espécies; origens do veganismo.

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Questões de definição. Vegetarianismo, gênero e espécies; origens do veganismo.


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O que é um vegetariano? E o que é um vegano?

Noto há pelo menos 5 anos uma espécie de movimento revisionista do termo “vegetariano”, no sentido de corrigir o que é visto como uma falha ou manipulação histórica: a inclusão de produtos de origem animal – como ovos e leite – na dieta vegetariana.  Ainda, uma recente exposição durante o ENDA, publicação de artigo na Revista dos Vegetarianos (disponível também em  http://www.anda.jor.br/2010/06/21/protovegetarianos/ ) e também no site ANDA(vide:  http://www.anda.jor.br/2009/10/12/etica-dietas-e-conceitos/ ) confirmam a tendência. Protovegetarianos, pseudovegetarianos, vegetusianos ou simplesmente “onívoros que não comem carne”, acredito ser impossível negar até mesmo uma carga de desprezo nesse tipo de proposta.

Esclareço de pronto que o conceito aqui discutido será o ocidental, com primeira referência escrita em 1839 e determinação e popularização de significado em 1847.

A afirmação, grosso modo, é de que a palavra “vegetariano” designaria somente os vegetarianos estritos por ser uma contração das palavras “vegetal” e sufixo “-ano”. Dessa forma, apenas vegetais poderiam ser incluídos na dieta vegetariana, com exclusão de leite, ovos, mel ou qualquer outro produto de origem animal. Sem cerimônia, embora fungos tenham também uma razão histórica para inclusão na dieta (já foram considerados erroneamente como vegetais), esqueceram do reino mineral, pois defendem que o termo seria exclusivo.

Essa corrente se contrapõe à alegação de que a etimologia de vegetariano vem de “vegetus” (forte, vigoroso) + sufixo nominal “-ano” que designa ser partidário de algo, assim como é o sufixo “ista”. Como conseqüência, apenas são vegetarianos de fato os “vegetarianos estritos”.

Atualmente, aceito que a etimologia mais provável vem realmente de “vegetal” e não de “vegetus”. Entretanto, discordo da corrente revisionista que se baseia, objetivamente, na etimologia.  Explico: a questão de apreensão de um termo é parte essencial da lógica formal e não se resume à etimologia (ou seja, análise da origem da grafia da palavra). O conceito de vegetariano tem agregado a si cargas ideológicas e históricas muito anteriores à explicação e à tentativa de dissociar a etimologia de vegetais.

O que eu me questiono é justamente isso: qual o interesse em se questionar um termo – feliz ou infelizmente, o que me parece irrelevante  – consolidado quando existe outro com uma carga ideológica muito mais definida, justificada e aceita para que tenham o mesmo conteúdo? Portanto, discordo dessa questão terminológica (o que não quer dizer que eu discorde do veganismo ou não acredite ser uma opção mais ética do que o vegetarianismo; tanto que sou vegana).

Julgo ingenuidade supor que alguém realmente páre o consumo de ovos, laticínios e mel apenas para se enquadrar a um conceito, o que parece ser a intenção de alguns defensores da tese. Tanto que temos, ainda hoje, quem se julgue vegetariano mesmo comendo peixes, crustáceos ou moluscos  (o que está completamente fora da definição de vegetariano, aliás). O fato é que dizer a uma pessoa que consome peixes que ela não é vegetariana, por si só, não altera o comportamento. No máximo consegue-se o uso do termo piscitariano (que é o correto) e adequação terminológica. Discutir condutas e motivações, entretando, pode ter algum resultado.

Senão, teremos uma distorção de motivação que – em termos de fundamentação e continuidade de condutas – deveria ser bastante indesejável.

Além disso, a modificação da definição de vegetarianismo já não pode mais ser feita de forma particular por um grupo ou outro. O conceito tornou-se universal, usado por diversas sociedades vegetarianas pelo mundo afora. Assim, para a descaracterização de um comportamento como aceito dentro do vegetarianismo (no caso, consumo de produtos de origem animal exceto carnes), a eventual readequação do termo deveria ser discutida em congressos internacionais. Especificamente, parece adequado que isso seja proposto no Congresso Mundial promovido pela IVU – Internacional Vegetarian Union.

Entretanto, mais uma vez, veria uma tentativa de repetir o que já o ocorreu com Donald Watson e uma completa inutilidade de novos termos.

A primeira questão que se coloca é: como surgiu a palavra “vegetariano”? Supomos, inicialmente, que sua origem é americana ou inglesa (embora haja quem defenda a origem alemã, mas essa posição é minoritária).

O Dicionário Online de Etimologia (1) (por Douglas Harper, fontes diversas) diz:

“Vegetarian
1839, irregular formation from vegetable (n.) + -arian*, as in agrarian, etc. “The general use of the word appears to have been largely due to the formation of the Vegetarian Society in Ramsgate in 1847″.”

Tradução livre:
Vegetariano
1839, forma irregular de vegetal (subs.) + iano (…). “O uso geral do termo parece ter sido extendido devido à formação da Sociedade Vegetariana em Ramsgate, em 1847)”

A lingüística nos ajuda a entender o uso da língua inglesa para a formação de palavras em português, no caso pelo uso do sufixo “-arian”:

“o sufixo –arian em inglês é utilizado para “formar substantivos agentivos, em geral a partir de radicais latinos, com o significado de (…) “portador de um princípio”. (…) –arian originou-se como mera substituição para palavras latinas em –arius na segunda metade do século XVI”. Em português, o sufixo equivalente a –arian seria –ista.” (2)

Assim, digo desde já que a tradução mais adequada da palavra “vegetarian” teria sido “vegetarista”, conforme explicado na supra citada dissertação, palavra a que me referirei no futuro. Voltarei a essa palavra mais tarde.

Entretanto, aceita-se em português a mesma significação de “filiação a um princípio” tanto para o sufixo “–ista” quanto para o sufixo “–ano”.

Interessa notar que a palavra vegetariano, ao contrário de designar tipo de alimentos (o que seria designado pelo sufixo “-fago” – e.g. creófago – ou “-voro” – e.g. herbívoro) designa filiação a uma corrente.  Portanto, termo cultural cuja definição depende de conteúdos ideológicos.

O problema é que existe a definição nominal (etimológica) e existe a definição real que exprime a natureza do termo, agrega aspectos históricos/culturais e pode ser tanto essencial quanto descritiva. Vegetariano no sentido comum, dado inicialmente pela VegSoc, é uma definição real descritiva; isso quer dizer que inexistindo “caracteres essenciais (gênero próximo e diferença específica), “enumeram-se os caracteres exteriores mais marcantes de uma coisa, para permitir distingui-la de todas as outras.” (3) . Assim, definiu-se vegetariano como um termo equívoco, ou seja, portador de mais de um sentido. O primeiro sentido é genérico, expondo um conjunto de  comportamentos aceitáveis para a definição, sem entretanto especificar. Dessa forma:

  • VegSoc (Britsh Vegetarian Society): “A vegetarian is someone living on a diet of grains, pulses, nuts, seeds, vegetables and fruits with or without the use of dairy products and eggs (preferably free-range). (4) (“Um vegetariano é alguém vivendo numa dieta de grãos, leguminosas, castanhas, sementes, verduras e frutas, com ou sem o uso de laticínios e ovos (não de granjas, preferencialmente”).
  • IVU  (International Vegetarian Union) “(…) vegetarianism includes veganism and is defined as the practice of not eating meat, poultry or fish or their by-products, with or without the use of dairy products or eggs(5) (mesma definição utilizada pela SVB)  (“…vegetarianismo inclui veganismo e é definido como a prática de não comer carnes, frango ou peixe ou seus subprodutos, com ou sem o uso de laticínios e ovos.”)

Então, fica claro que para as entidades mais antigas e mais ativas, a palavra vegetarianismo engloba uma série de comportamentos, admitindo o uso de ovos e leite ainda hoje. Apenas uma anotação: a IVU menciona a inclusão do veganismo dentro do vegetarianismo “para fins de associação”. O que quer dizer, basicamente, que a IVU considera o veganismo como um movimento com características diversas. E, considerando a história do veganismo, o raciocínio é correto. Voltarei a isso mais tarde.

O segundo sentido da palavra causa grande parte da confusão. “Vegetariano estrito” ou somente “vegetariano”  é a espécie que tem a alimentação baseada exclusivamente em vegetais.  De acordo com as definições invocadas, vegetarianismo é gênero que designa opção alimentar, do qual temos as seguintes espécies:

  1. ovolactovegetariano (aquele que não consome qualquer tipo de carne ou derivados mas consome ovos e laticínios )
  2. lactovegetariano (aquele que não consome qualquer tipo de carne ou derivados, nem ovos, mas consome laticínios)
  3. ovovegetariano (aquele que não consome qualquer tipo de carne ou derivados, nem laticínios, mas consome ovos)
  4. vegetariano (ou “vegetariano puro” ou “vegetariano em sentido estrito”) (aqueles que não consome qualquer tipo de carne ou derivados, nem laticínios, nem ovos ou mel).

A verdade é que o conceito acabou por se definir não por inclusão apenas de vegetais na dieta, mas por exclusão da carne (qualquer tipo de tecido ou órgão animal). E ovos e laticínios, por mais questões éticas que levantem, não são carne, não são um corpo morto, que parece ter o poder de chocar mais num primeiro momento que uma condição de não-liberdade (o que é uma constatação e não uma defesa de sua manutenção na dieta).

Ovos e leite são uma secreção e uma célula reprodutiva mas que, em si, não contém qualquer forma de vida. Mesmo o consumo de ovos, que pode ser considerado polêmico levando em conta muitas das formas de alimentação vegetariana antigas, tinham o não-consumo justificado pelo princípio da vida e não pela condição das galinhas (existindo até mesmo frase atribuída a Ghandi – que não consumia ovos, era lactovegetariano – afirmando em 1935 que o consumo de ovos não fecundados não seria contrário ao satyagraha (6), com enfoque exclusivo na natureza do ovo e não em seu ciclo de produção).

Na época, talvez por uma análise superficial ou apenas imediata dos fatos, esse dado pareceu mais relevante que a submissão dos animais ao controle humano e sistemas de produção e exploração que, direta ou indiretamente, resultam na morte de bovinos e aves. Supõe-se que as condições climáticas no norte da Inglaterra também tenham dado suporte ao hábito.

Há também quem questione o fato de nossos dicionários (tanto o Aurélio quanto o Houaiss) trazerem o termo “Vegetarista” com o sentido que damos a “vegetariano enquanto gênero” e o termo “Vegetariano” enfocando somente o vegetarianismo estrito, ou seja, espécie. Conforme já comentei, a tradução mais correta da palavra “vegetarian” teria sido vegetarista, aceitando-se entretanto a forma vegetariano. Porém, nota-se que o dicionário data ambos os termos em 1899 (sendo que a definição ocorreu em 1847); nesse ano, fundou-se a Société Végétarienne de France (ativa de 1899 a 1914), o que nos leva a concluir a origem francesa dos termos dicionarizados em português (aliás, nossa língua importou da França uma quantidade considerável de vernáculos).

Curiosidade: em francês adotam-se três termos e não dois. O primeiro, que designa o gênero, é végétarisme, que engloba dois comportamentos:  être (ser) végétarien e être végétariste . E, apesar do sentido dado pelo dicionário, vegetariano estrito – incluindo aí o comportamento ativista e outros hábitos além da alimentação – seria o vegetarista. Isso explica o uso e definição dessa palavra no livro “Vegetarianismo – Chega de Abobrinha”, apesar de ser contrária o idioma português. Entretanto, tradutores do idioma não fazem qualquer distinção entre os termos, sendo todos mencionados como vegetarianismo e “ser vegetariano”. Existe, ainda, o termo véganisme e o comportamento être vegan (ser vegano).

O fato é que os termos dicionarizados foram completamente invertidos e não levam em conta a história por trás das palavras. Parece, entretanto, que tal discussão perdeu a relevância nos últimos anos e sequer tem sido usada como argumento dos defensores da regressão terminológica. Provalmente porque somente em 2007/2008 o termo “Vegan” foi dicionarizado pelo Houaiss, e de forma que numa análise atenta também pode ser considerada incorreta.

Voltando ao dicionário etimológico, o próprio texto diz que até 1847 (século XIX) – com a fundação da Sociedade Vegetariana Britânica, em Ramsgate (a Vegetarian Society ou VegSoc, ativa até os dias de hoje) – a palavra “vegetariano” era bem pouco divulgada, e seu uso acabou se popularizando nesse ato. Atribui-se a Joseph Brotherton a definição do comportamento aceito de seus membros. Em 1849, com o lançamento do periódico ‘The Vegetarian Messenger’, o vegetarianismo passa a ser mais discutido entre não-membros, com a significação que perdura até hoje.

Entretanto a primeira referência escrita data de quase uma década antes, em 1839. Escrito por Frances Anne (Fanny) Kemble – que não era vegetariana – o texto “Journal of a Residence on a Georgian Plantation” (7) relata as experiências da autora numa fazenda situada no estado americano da Georgia.

O objetivo do diário era mostrar as condições precárias dos escravos, sendo a menção ao vegetarianismo eventual. Veja o trecho (em tradução livre):

“ The sight and smell of raw meat are especially odious to me, and I have often thought that if I had had to be my own cook, I should inevitably become a vegetarian, probably, indeed, return entirely to my green and salad days”.

“A visão e cheiro da carne crua são especialmente odiosas pra mim, e eu às vezes penso que se eu mesma tivesse que cozinhar, eu inevitavelmente me tornaria uma vegetariana/vegetarista, provavelmente, de fato, retornaria totalmente aos meus dias de legumes e vegetais”.

Embora exista quem remonte a existência da palavra muito anteriormente a essa referência escrita (de Benjamin Franklin à palavra germânica vegetariar), não existe nenhuma fonte confiável que tenha realmente se sobreposto a essa citação. Portanto, vamos considerá-la para poder prosseguir.

Pois bem. O texto, escrito por uma não-vegetariana, embora faça menção a vegetais, acaba por mostrar o vegetarianismo não como uma dieta composta apenas por vegetais. De verdade, a idéia da dieta vegetariana aparece aqui como uma contraposição à idéia de comer carne (por nojo da carne crua). O texto posteriormente faz menção a consumo de produtos de origem animal e a idéia simplesmente não é retomada.

Claro que nos faz questionar o uso oral, mesmo que eventual e com significado pouco definido, da palavra anterior à menção citada.

Não é desconhecida a existência de grupos de vegetarianos cristãos já no século XVIII. E as raízes desse grupo – que em 1850 acabou por fundar a hoje extinta American Vegetarian Society – são exatamente as mesmas que levaram à fundação da VegSoc em 1847: a igreja metodista “Bible Christian Church”, fundada em 1809 por William Cowherd. O voto dessa congregação, imposto por seu reverendo, era o de “não comer carne”, nada sendo dito em relação a ovos e leite. Esclareço, uma vez que o assunto normalmente é abordado, que embora os membros da Igreja Adventista desempenhem um papel importante na divulgação do vegetarianismo, Ellen White somente passou a divulgar a dieta vegetariana (e outras restrições) em 1863 e por isso não será considerada nas origens da Sociedade Vegetariana e do conceito, embora certamente tenha desempenhado papel na consolidação do mesmo.

A segunda referência escrita – e que por muito tempo foi considerada a primeira – surgiu no periódico inglês “The Healthian”, em 1842:

“…To tell a man, who is in the stocks for a given fault, that he cannot so be confined for such an offence, is ridiculous enough; but not more so than to tell a healthy vegetarian that his diet is very uncongenial with the wants of his nature, and contrary to reason”.

“…Dizer a um réu confesso que está condenado ao tronco que ele não pode ser confinado por esse tipo de ofensa é suficientemente ridículo; mas não mais do que dizer a um vegetariano saudável que sua dieta é bastante contrária aos desígnios da natureza e contrária à razão”.

O Healthian era um pequeno jornal de circulação restrita a uma comunidade vegetariana Alcott House (8), Ham Common, em Surrey, próxima a Londres. Tal comunidade era influenciada pela doutrina de Amos Bronson Alcott e fundador de Fruitlands, que defendia não apenas a abstinência de carne, mas de todos os derivados animais. Nesses termos, poder-se-ia defender que o termo vegetariano foi usado como sinônimo de vegano. Fruitlands, inclusive, não utilizava trabalho animal em suas plantações. Mas outras restrições existiam: café, chá, álcool, açúcar/melado, arroz (por serem provenientes do trabalho escravo) e até vegetais como cenouras, beterrabas e batatas (por nascerem debaixo da terra). Há menções à Alcott House como uma instituição crudivorista. Entretanto, há textos indicando que o próprio Amos Bronson Alcott referia-se à sua alimentação como “dieta Pitagórica”, sem o uso da palavra “vegetariana”, o que nos faz concluir que embora usado eventualmente o termo ainda não era popular.

Esse era o cenário do vegetarianismo nos Estados Unidos e em Londres na época em que se delimitou o conceito.

Não podemos esquecer, entretanto, que o hábito de não comer carne (e/ou produtos de origem animal) tem raízes mais antigas. Muitas, inclusive, ligadas a hábitos religiosos ou filosóficos.

Uma das mais importantes – com grande influência no Ocidente, incluindo adeptos a forma de vida semelhante no século XVIII – é a dieta Pitagórica. De acordo com o médico naturalista italiano Antonio Cocchi, em 1743 (9), a dieta pitagórica era baseada em raízes, folhas, frutas e sementes, com ingestão diária de leite e mel. O consumo de carne fresca e vinho era tolerada raramente, em pequena quantidade, em ocasiões especiais, mas nunca como um hábito – o que se explica pelo enfoque fisiológico e não ético do vegetarianismo. Especiarias – como pimentas, noz moscada, cravo e canela – eram expressamente proibidas. Feijões e castanhas tinha consumo muitíssimo restrito e sempre acompanhados de outros alimentos. Ovos eram colocados no mesmo nível da carne. Pitágoras parece ter seguido basicamente essas linhas, sem entretanto admitir a ingestão sequer ocasional de carne ou ovos.

Num dos poucos textos – já que Pitágoras não deixou escritos de próprio punho conhecidos – Ovídio atribui ao filósofo o seguinte:

“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substancia e no seu sangue o nosso corpo! Para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome? […] É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista dum enorme crime! ” (10)

Assim, é possível notar que para os pitagóricos a questão “morte” era primordial e por isso a vedação ao consumo, inclusive de ovos. Alguns citam esse trecho como vegetarianismo ético. Há razão na afirmação, mas não se pode ignorar que são ecos de um tipo de ética religiosa (embora afirme-se que o misticismo pitagórico seria não-emocional e baseado em método matemático).

Apesar de Pitágoras ser um filósofo, os pitagóricos mantinha a restrição à carne (e ovos, considerados por eles princípio da vida) por um motivo puramente espiritual: a crença na transmigração das almas (de humanos para animais, inclusive).  Pelo mesmo motivo, Pitágoras institui uma prática pouco comum nos ritos religiosos da época: o sacrifício incruento (ou seja, nã0-doloroso e sem animais).

Nos séculos seguintes, dietas ocidentais com restrição de carnes (e variações em relação a outros vegetais, bebidas estimulantes, álcool, etc.) eram chamadas comumente de “Pitagóricas” (aparentemente, sem nenhuma discussão sobre a incorreção do termo).

Considere-se também a obra de Jean-Jacques Rousseau “Emílio, ou Da Educação” (11).  O livro, escrito em 1762, faz comentários sobre a melhor forma de criar uma criança e também a melhor alimentação para a lactente e posteriormente para a criança. O livro utiliza o termo “regime vegetal” e faz orientações bastante próximas às defendidas por Antônio Cocchi.

Ao mesmo tempo, no oriente, temos diversos exemplos de dietas com restrição ao consumo de carnes. Duas são realmente importantes na história do vegetarianismo:

a)      Jainismo: corrente que leva em consideração o Ahimsa (não violência) em sua forma mais ampla e absolutam além de Jivai Daxa (compaixão). São vegetarianos estritos e não seguem nem os Vedas nem os princípios do Bramanismo. Mesmo o consumo de vegetais que morrem na extração é evitada ao máximo. Os monges da religião carregam pequenas vassouras para não pisas em insetos e usam lenços na boca para não engoli-los.

b)      Alimentação Védica: existem diversas vertentes no hinduísmo. Algumas adotam a alimentação vegetariana, sendo essa normalmente lactovegetariana. São considerados védicos todos os vegetais fresco, leite e derivados. Moderam-se alimentos rajásicos e excluem-se alimentos tamásicos como a carne, ovos, alimentos estragados e até mesmo alimentos processados por um não-devoto.

O budismo também deve ser considerado, mas não será comentado vez que suas raízes também se encontram em práticas hinduístas e há várias semelhanças. No mais, as relações entre ingleses e indianos talvez – e isso é uma hipótese pessoal – tenham influenciado de alguma forma as idéias ocidentais sobre vegetarianismo.

Quiçá o berço do vegetarianismo seja o oriente. Mesmo grandes pensadores ocidentais como Pitágoras (que, aliás, era lactovegetariano) podem ter bebido dessa fonte, o que se nota ao analisar os textos de orientação de conduta a seus discípulos. Os escritos de Plutarco, Sêneca, Sócrates e Diógenes, além de escritores modernos como Alexander Pope, Volteire e Lamartine e um sem número de outros intelectuais sempre priorizaram o horror da idéia de se alimentar de outro corpo, de sangue. Portanto, a carne em si sempre foi, no mínimo, o problema mais visível do vegetarianismo.

O que faremos se adotarmos essa nova classificação? Desconsideraremos textos e citações desses “onívoros que não comem carne” e as apagaremos da história ou teremos que considerar que o vegetarianismo faz parte da história, mesmo com a inclusão de ovos e leite em algumas vertentes?

É inegável, portanto, que existia uma variedade considerável de condutas – com as mais variadas motivações – que tinham em comum apenas a ausência de qualquer tipo de carne da alimentação. Algo como uma Babel alimentar, com grupos bastante segmentados e, portanto, com pouca representatividade social. Justamente essa necessidade de encontrar o ponto em comum – e a constante referência em qualquer desses grupos ao horror da idéia de se alimentar de outro corpo, de sangue – parece ter sido determinante para a delimitação do conceito, da exclusão de animais como peixe e da inclusão de produtos de origem animal não-cárneos.

Até hoje, aliás, alguns lactovegetarianos que se alimentam de prásada (ou seja, seguindo princípios religiosos/espirituais) clamam quem a dieta estritamente vegetariana é essa, aumentando um pouco mais a confusão dos termos, o que é tão indesejável quanto a redefinição de “vegetariano” neste momento.

Ao mesmo tempo, uma vez que era hábito de boa parte de seus membros, ocorreu a inclusão do consumo de ovos como conduta permitida no vegetarianismo. Isso poderia, de uma certa forma, ser sustentado como manipulação e distorção. A argumentação, entretanto, desconsidera as outras formas de alimentação mais antigas e relevantes em que a inclusão de leite e derivados na alimentação era constante e jamais poderia ser vista como mera manipulação, mas apenas como constatação. Ao mesmo tempo, não se excluíram as sociedades com hábitos mais restritivos, ou seja, os vegetarianos estritos e nem se negou sua importância na construção do vegetarianismo como um todo.

Abro um parêntese. Há quem cite Anna Kingsford – autora de “The Perfect Way in Diet”, texto referência do vegetarianismo moderno – em trecho retirado do livro “Dreams and Dream Stories” como uma evidência de que o vegetarianismo não incluiria em seus primórdios o uso de laticínios ou derivados:

“(…) I think it right to add that for the past fifteen years I have been an abstainer from flesh-meats; not a “vegetarian”, because during the whole of that period I have used such animal produce as butter, cheese, eggs, and milk.” (12)

“(…) Julgo correto dizer que nos últimos 15 anos eu me abstive de carnes; não uma “vegetariana”, porque durante todo esse período eu fiz uso de produtos de origem animal como manteiga, queijo, ovos e leite.”

Entretanto, existem graves inversões nesse raciocínio.  A primeira é que o texto foi escrito em 1886 e, portanto, após a definição da Vegetarian Society, sendo inclusive a autora contribuinte da sociedade. A segunda é julgar irrelevante a presença de aspas na palavra vegetarian, denotando muito provavelmente a palavra enquanto espécie e não gênero. A última, é que o no anterior livro “The Perfect Way in Diet” de 1881, com segunda edição em 1906, verificamos que a autora ainda faz uso dos termos “dieta estritamente vegetariana”, “severamente vegetariano”, mantém o uso do termo “dieta pitagórica” e cita expressamente o uso MODERADO (mas permitido) de ovos e laticínios prescrito a seus pacientes. Ainda, a motivação da autora, embora inegavelmente científica, tinha origem também no livro “The Perfect Way, or the Finding of Christ” de motivação religiosa, assim como a própria origem da Sociedade Vegetariana.Também desconsidera que o termo vegetariano sofreu críticas justamente na época das duas publicações e a autora não deveria estar alheia a esse fato.

O único erro que eu encontro no processo de definição foi a tentativa de justificar o termo etimologicamente pela palavra “vegetus”, o que era desnecessário. A escolha parece ter sido proposital: vegetus significa vigoroso, saudável; portanto, a ingestão de outros alimentos, desde que não sejam carne (porque o “vigoroso” não se alimenta diretamente de morte visível de um animal), não desqualificaria a opção. Embute-se também uma idéia de reforma alimentar e de alguma melhora, mesmo que parcial, nos hábitos e na saúde. Uma vez que a definição surgiu como uma inovação, não seria sequer a incorreta a escolha e indicação da etimologia. Entretanto, como já demonstrado, a criação da palavra é realmente anterior à justificativa etimológica, o que a coloca sob suspeita de imediato. Há que atribua a criação dessa justificativa em meados de 1888 por John Eyton Bickersteth Mayor, professor de latim na Universidade de Cambridge no período de 1872 a 1900. Os defensores dessa tese inclusive ressaltam a facilidade com que o professor de latim poderia ter feito essa associação. O problema é um pouco mais complicado que isso. Em 1852 já se encontra referência escrita dessa suposta origem no periódico “Vegetarian Messenger”, citada por Jonathan Wright, Tesoureiro da “Bible Christian Church” da Filadélfia e ligado como era de se esperar à American Vegetarian Society:

“The word vegetarian itself was almost convincing ; the ancient physiologists thought that vegetus was the most proper word to convince their fellow-men that their physical proportions could be best developed and best supported by ‘a growing diet,’ ‘a strong diet,’ ‘a sound, lusty, whole, quick, fresh, lively, gallant food or diet,’ for the word vegetus had all these meanings in ordinary language” (15)

“A palavra vegetariano por si só já é praticamente convincente; os antigos fisiologistas acreditavam que vegetus eram a palavra mais apropriada para convencer seus companheiros que suas proporções físicas poderiam ser melhor desenvolvidas e melhor mantidas por uma “dieta de crescimento”, uma “dieta de força”, “uma comida ou dieta segura, vigorosa, completa, rápida, fresca, com deleite”; pois a palavra vegetus tinha todos esses significados na linguagem comum.”

É incorreto mais uma vez assumir que apenas a etimologia – e a aparente modificação da mesma quase uma década anos após a definição do conteúdo – invalidem a palavra. Até mesmo considerando que a maior manipulação da origem do termo tenha se dado quase meio século após a fundação da Vegetarian Society, esse tipo de afirmação é reduzir o problema.

Opositores à palavra Vegetariano como gênero não faltaram, inclusive o presidente da Sociedade Vegetariana Britânica, Francis William Newmann, que ocupou o cargo de 1873 a 1884. Autor do livro Essays on Diet e crítico do consumo de ovos e leite pelos vegetarianos da época (14), Newmann chegou a propor o uso da palavra VEM (Vegetables, Eggs and Milk) para definir o hábito alimentar (16).

Mas o fato é nenhum outro termo conseguiu ter um conteúdo explicativo melhor do que “vegetarianismo” e suas variações (ovolactovegetarianismo, etc) para demonstrar a variedade de comportamentos e conjugar o máximo de pessoas com um ponto em comum e o uso com essa conotação tornou-se comum, universal e, ouso dizer, irreversível.

Também não existe nenhuma dúvida de que agregar vegetarianismo a condutas éticas e outros hábitos que não alimentares é muito anterior ao veganismo e diversas discussões permearam a decisão.

O termo é perfeito do aspecto etimológico? Não, mas cumpre seu papel lógico. Entretanto, se cabia discussão no século XIX, a divergência terminológica foi encerrada de uma vez por todas no século XX. No início do século a discussão de aspectos internacionais do vegetarianismo, os primeiros Congressos e a criação da Vegetarian Federal Union (Grã Bretanha) e posteriormente International Vegetarian Union acabou trazendo para a posteridade o conceito de vegetarianismo enquanto gênero e sua divisão nas quatro espécies que perduram até hoje. O 1º Congresso Vegetariano da IVU em 1909, aliás, é tido por muitos como o momento em que a necessidade de um novo termo para designar os vegetarianos estritos com fundamentação ética passa a ter uma maior relevância.

Além disso, o consumo razoavelmente freqüente de leite entre diversas vertentes milenares que deram também origem ao vegetarianismo moderno não pode jamais ser visto como manipulação. Podemos não gostar do hábito, mas acho pouco realista negá-lo. Mas o que me incomoda de fato e me leva a escrever esse artigo é que a corrente revisionista incoerentemente esquece e minimiza a própria história do veganismo.

O Veganismo é um movimento de dissidência, que há muito vinha se manifestando dentro do movimento vegetariano, com especial relevância na Vegetarian Society Britânica. E mesmo que suas origens sejam mais antigas, falar de veganismo é impossível sem falar em Donald Watson e a manifestação no periódico Vegan News n# 1. O periódico definia-se como a “Revista dos Vegetarianos sem laticínios” (non-dairy vegetarians), expressão já utilizada por muitos para se referir ao grupo na época, colocada de início para fins explicativos mas abandonada na seqüência, deixando os veganos de se referirem a si mesmos como vegetarianos, via de regra.

O termo “vegan” – que não é senão derivado de VEGetariAN – foi criado por Elsie (Sally) Shrigley (co-fundadora da Vegan Society) e Donald Watson. Jamais se citou no manifesto que a intenção fosse retomar o termo vegetariano. Jamais se discutiu o conteúdo do termo vegetariano como consolidado. Não há referência ao grupo sentir-se usurpado pelo uso do termo. De verdade, eles adequadamente levaram a discussão a outro patamar: o problema ético, a maturidade intelectual do grupo como um estilo de vida autônomo e, expressamente, como um passo além do vegetarianismo. Eles efetivamente não concordavam com a inclusão de carnes, ovos, leite e mel na alimentação ou na vida de qualquer pessoa; entretanto, isso não era um problema terminológico. A terminologia não apenas foi resolvida com a criação do novo termo, como os adeptos foram convocados a utilizar a palavra vegan:

“The recent articles and letters in “The Vegetarian Messenger” on the question of the use of dairy produce have revealed very strong evidence to show that the production of these foods involves much cruel exploitation and slaughter of highly sentient life. The excuse that it is not necessary to kill in order to obtain dairy produce is untenable for those with a knowledge of livestock farming methods and of the competition which even humanitarian farmers must face if they are to remain in business. (…) We should all consider carefully what our Group, and our magazine, and ourselves, shall be called. ‘Non-dairy’ has become established as a generally understood colloquialism, but like ‘non-lacto’ it is too negative. Moreover it does not imply that we are opposed to the use of eggs as food. We need a name that suggests what we do eat, and if possible one that conveys the idea that even with all animal foods taboo, Nature still offers us a bewildering assortment from which to choose. ‘Vegetarian’ and ‘Fruitarian’ are already associated with societies that allow the ‘fruits'(!) of cows and fowls, therefore it seems we must make a new and appropriate word. As this first issue of our periodical had to be named, I have used the title “The Vegan News”. Should we adopt this, our diet will soon become known as a VEGAN diet, and we should aspire to the rank of VEGANS .” (17)

“Os recentes artigos e cartas em “O Mensageiro Vegetariano” sobre a questão do uso de laticínios revelaram evidências contundentes que mostram que a produção desse tipo de alimento envolve muita exploração cruel e abate de vidas sencientes. A desculpa de que não é necessário matar a fim de obter laticínios é inadequada para aqueles com conhecimento dos métodos de fazendas e granjas e da competição que até mesmo fazendeiros humanitários devem encarar se eles querem permanecer no negócio. (…) Nós deveríamos todos considerar cuidadosamente como nosso Grupo, nossa revista e nós mesmos devemos nos chamar. “Sem-laticínios” acabou se estabelecendo como um coloquialismo entendido de forma geral; mas assim como “não-lacto” é muito negativo. Além disso não deixa explícito que nos opomos ao uso de ovos como comida. Nós precisamos de um nome que sugira que nós não comemos e se possível um que passe a idéia de que mesmo com todo o tabu dos alimentos de origem animal, a natureza ainda nos oferece uma imensa variedade da qual podemos escolher. Vegetarianos e Frutarianos já são associados de sociedades que permitem “frutos”(!) de vacas e frangos; portanto parece que nós precisamos criar uma palavra nova e apropriada. Como a primeira edição do nosso periódico tinha que ser nomeada, eu usei o título “Notícias Veganas”. Nós devemos adotas isso, nossa dieta em breve será conhecida como dieta VEGANA, e nós devemos aspirar ao título de VEGANOS.

Não vejo nesse texto a Vegan Society se lamentando da apropriação do termo vegetariano pelos consumidores de ovos e leite. O que eu vejo é uma crítica ao consumo e um chamado para a criação de uma nova sociedade, uma nova palavra e, principalmente, a adoção desse novo estilo de vida.

Embora nesse primeiro texto sob o título de vegano Donald Watson não tenha mencionado expressamente a problemática do mel e nem tenha mencionado especificamente outros hábitos de consumo, essa questão não só pode ser extraída da idéia geral de não-exploração como foi firmada 2 anos depois por Fay K. Henderson, secretário da Sociedade Vegana, no texto “The Vegan Way of Life”, de 1949. (18)

Aliás,um comentário: por favor, jamais utilizem termos como “ovolactovegano” na intenção de demonstrar uma preocupação ética com o outros itens de consumo além da alimentação. Essa palavra definitivamente não existe e é absurdamente incoerente com a história do veganismo; tão incoerente quanto um piscitariano insistir em se chamar de vegetariano ou pescovegetariano. O vegetarianismo com uma preocupação adicional dos outros hábitos de consumo decorre de coerência com a motivação adotada. Quem não consome carne por não querer consumir um animal morto jamais deveria aceitar produtos como um sapato de couro ou um sabonete elaborado com sebo animal; mas essa conduta não deixa de ser uma das variantes do vegetarianismo.

Aliás, a posição de crítica dos veganos ao lacto-vegetarianismo (de verdade, todas as formas. Mas o lacto-vegetarianismo costuma assumir o status de uma “última fronteira”) é declarada no Vegan News # 1. Não poderia ser de outro jeito, já que é a postura objetiva do veganismo. Ao mesmo tempo, Donald Watson diz claramente para não haver animosidade, que o lacto-vegetarianismo tem um lugar de destaque na evolução alimentar e não esquece que muitos dos membros do recém criado grupo não só foram vegetarianos como ativistas pela divulgação do lactovegetarianismo. Entretanto, os veganos estão na posição de provar a possibilidade de se viver sem laticínios, outros produtos de origem animal e apontar os danos causados pelo mesmo.

Em uma das últimas entrevistas concedidas por ele em 15 de Dezembro de 2002, aos 92 anos, o fundador do veganismo enquanto movimento autônomo relembra ocasiões de cooperação entre vegetarianos e veganos, mas reafirma:

“And, as the vegan idea developed, we saw, or some of us did, that, although vegetarianism was a very useful “stepping-stone” to veganism, and one which we had all used to get to where we were, unless the consumption of dairy produce was limited, it could be an even more cruel diet than the orthodox diet (…) To vegetarians, I would say, accept, as, if you’re honest you must, that vegetarianism, whilst being a necessary stepping-stone, between meat eating and veganism, is only a stepping stone. We all use this stepping stone, I’ve not met a vegan who didn’t approach the movement by that route. There may be vegans I’ve never known, over the last sixty years, who made the change all in one leap, but I’m sure that, being a realist, I accept that vegetarianism is a necessary staging-post in the evolution of humane dietetics.” (19)

“E, enquanto a idéia vegana se desenvolvia, nós vimos, ou alguns de nós vimos que, apesar do vegetarianismo ser um “degrau” útil para o veganismo, e um que todos nós nos acostumamos a usar para onde íamos, a menos que o consumo de laticínios seja limitado, o lactovegetarianismo pode ser uma dieta ainda mais cruel do que a ortodoxa (…) Para os vegetarianos eu diria: aceite, se você é honesto você precisa aceitar, que o vegetarianismo, ao mesmo tempo em que é um degrau necessário entre comer carne e o veganismo, é apenas um degrau. Nós todos usamos esse degrau, eu não conheci nenhum vegano que tenha se aproximado do movimento senão por esse caminho. Pode haver veganos que nunca conheci nesses últimos sessenta anos que fizeram a mudança de uma vez, mas eu estou certo de que, sendo um realista, eu aceito que o vegetarianismo seja um estágio necessário na evolução dietética humana.”

Não é possível ler essas palavras e não se lembrar do “V-Label”, símbolo universal do vegetarianismo criado em 1976, do qual floresce um girassol dando origem ao símbolo da Vegan Society. E, mais uma vez, não se vê qualquer discussão terminológica e nem se encontra relevância para a mesma quando o que se busca é a adesão ao veganismo.
CONCLUSÕES:

Não há dúvidas de que o veganismo se opõe ao vegetarianismo que inclui produtos de origem animal. Entretanto, não só o termo vegetariano tem razões históricas para a inclusão de produtos de origem animal (ovos, leite, mel, etc) nesse tipo de alimentação, como o surgimento do veganismo enquanto movimento autônomo e contrário a esses itens firmou a distinção de condutas.

A origem etimológica da palavra, embora realmente derive de vegetais e não de vegetus, é irrelevante para a determinação do conceito que é Real e Descritivo, histórico, e não meramente nominal.

Assim, a palavra “vegetariano” é equívoca (ou seja, tem dois significados), designando tanto um gênero (todo o universo de pessoas que não comem carne, incluindo ovolactovegetarianos, lactovegetarianos, ovovegetarianos e vegetarianos que consomem mel) quanto espécie (o vegetariano estrito). Por fim, o surgimento do VEGANISMO estabelece as diferenças do modo de conduta e torna inútil a modificação do termo no atual momento.

Hoje em dia muito se fala de veganismo, o que é uma consequência do seu crescimento. Entretanto, nota-se que a adesão ao veganismo parte normalmente de pessoas que já são vegetarianas. Não há qualquer regra que determine isso, sendo fisiológica e mentalmente possível a adoção do veganismo de forma direta. Entretanto,

Os novos membros quase sempre se interessam pela idéia inicial de não comer um outro corpo. Na medida em que as informações são adquiridas, processadas e digeridas, deixar leite, ovos, mel, produtos testados, etc, pode ser uma opção ou, melhor, uma conseqüência inevitável da premissa adotada, da inequívoca identidade dos animais, e que dever ser estimulada.

Mas isso não tem nada a ver com a alteração tardia do termo “vegetariano”. A reforma do conceito não vai senão gerar longas discussões e cansativos artigos como esse, além de uma boa dose de antipatia por alguns membros defensores dessa inútil e errônea abordagem.

Renata Octaviani Martins
26 de Outubro de 2010.

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Referências diretas:
(1) Online Etymology Dictionary. http://www.etymonline.com/
(2) CRUZ L. ARRAES, Flávia Cristina. Empréstimos lingüísticos do inglês, com formativos latinos, adotados pelo português do Brasil. Tese (Doutorado) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2006.  http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/2540/1/dissertacao%20Fl%C3%A1via%20Cristina%20Cruz%20Lamberti%20Arraes%20Vol%201.pdf
(3) JOLIVET, Regis. Curso de Filosofia. Conteúdo consultado em http://www.consciencia.org/cursofilosofiajolivet3.shtml
(4) Vide:  http://www.vegsoc.org/info/definitions.html
(5) Vide: http://www.ivu.org/faq/definitions.html
(6) YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um Iogue. Páginas 468 e 477. Rio de Janeiro, Lótus do Saber Editora, 2001. Disponível também em http://www.scribd.com/doc/6592254/ Autobiografia-de-Um-Iogue (páginas 222 e 226).
(7) KEMBLE, Frances Anne. “Journal of a Residence on a Georgian plantation”. http://www.gutenberg.org/cache/epub/12422/pg12422.txt
(8) Vide: http://en.wikipedia.org/wiki/Alcott_House e referências
(9) Vide: http://jn.nutrition.org/cgi/reprint/116/7/1355.pdf
(10)Vide: http://pt.wikipedia.org/wiki/Vegetarianismo
(11) ROUSSEAU, Jean Jacques. Emilio – O La Educacion. 1762. Conteúdo consultado em http://www.unsl.edu.ar/librosgratis/gratis/emilio.pdf
(12) KINGSFORD. Anna (Bonus). Dreams and Dream Stories. 1886. Disponível em http://www.gutenberg.org/cache/epub/5651/pg5651.txt
(13) KINGSFORD. Anna (Bonus). The Perfect Way in Diet. 1881. Segunda edição em 1906. Disponível em http://www.anna-kingsford.com/english/Works_by_Anna_Kingsford_and_Maitland/Texts/02-OAKM-I-PWayDiettxt-web.htm
(14) NEWMANN. Francis William. Essays on Diet. 1883. Disponível em http://www.ivu.org/history/europe19b/essays_on_diet_newman.htm
(15) Vide: html http://www.ivu.org/congress/wvc57/souvenir/hough.html
(16) Vide: http://www.ivu.org/history/thesis/definition
(17) Vide: http://www.ukveggie.com/vegan_news/
(18) Vide: http://www.ivu.org/history/world-forum/1947vegan2.html
(19) Vide: http://www.abolitionistapproach.com/media/pdf/donald-watson-interview.pdf

Outras fontes:

  • http://www.ivu.org/history
  • http://www.vegsoc.org/news/2000/21cv/history.html
  • http://www.ellenwhitebooks.com/ellenwhite.asp
  • http://www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=2509&Itemid=96
  • http://www.v-label.info/en/home/vlabel.html
  • http://www.vegansociety.org
  • htp://www.svb.org.br
  • DEROSE, Mestre. Alimentação Vegetariana – Chega de Abobrinha. 2004, Ed. Nobel, São Paulo.
  • SLYWITCH, Eric. Alimentação Sem Carne. 2010, Ed. Alaude, São Paulo.
  • ISKON. The Higher Taste. 1983, ITV, Los Angeles.
  • BRAHMA KUMARIS. Comida com consciência – Receitas Vegetarianas. 2003, Ed. Confluência, São Paulo.
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