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Sandra Guimarães: Duas bandeiras pela paz


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Entrevista
Por Renata Octaviani Martins/ Edição Raquel Ribeiro

Sandra Guimarães tem 29 anos, é “linguista de formação, cozinheira por vocação e ativista de coração”. Blogueira, publica suas receitas e descobertas no Papa Capim Veg, um ótimo site de ativismo gastronômico e divulgação do seu trabalho com a culinária vegetal.

Formou-se em 2007, em Paris, com especialização em psicolinguística e aquisição da linguagem. Apesar de adorar o estudo, “queria fazer algo com um significado maior, altruísta, humanitário: queria transformar o mundo em um lugar melhor.”  Ao se tornar vegana, Sandra escreveu o artigo “A importância de ser vegetariano” para alertar amigos e parentes “sobre a incrível descoberta que tinha feito”. Com uma ou outra exceção, a turma não deu a mínima. Mas enquanto pesquisava e escrevia, ela se encontrou. Parou o mestrado, optou por ser autodidata e aos poucos começou a trabalhar com culinária. “O ativismo entrou na minha vida um pouco depois e realizei o sonho de trabalhar fazendo o bem”. Ela mora em Belém, na Palestina, com sua esposa Anne, uma fotógrafa especializada em direitos humanos. Sandra investe sua energia em prol de dois regimes: o da paz entre os homens e o vegetarianismo.

Leia a entrevista completa:

P- Qual foi sua trajetória?

R- Aos 13 anos li sobre intercâmbio e fiquei maravilhada com a idéia de estudar em outro país, descobrir outra cultura, outras paisagens. Estudava em escola pública, sabia que meus pais não teriam condições de pagar, mas decidi trabalhar e juntar dinheiro pra fazer faculdade no exterior. Comecei aos 14 anos, dando aula particular, e aos 17 consegui minha primeira carteira assinada. Três anos depois, arrumei as malas e fui para Paris. O fato de morar em uma cidade relativamente pequena (Natal), onde os horizontes das pessoas são tão limitados, de pertencer à uma família conservadora, de ser uma adolescente gay e me sentir terrivelmente sozinha e marginalizada, de ter sonhos tão diferentes das minhas amigas, isso tudo aumentou minha vontade de partir, de explorar novos mundos, longe dessa sociedade que não me aceitava, me sufocava.  No primeiro ano aprendi francês, no segundo entrei para Sorbonne. Para me manter trabalhava como baby sitter. Aprendi a exercitar a paciência e cozinhar pra criança que só gosta de biscoito recheado. Durante os anos de universitária, visitei boa parte da Europa, Marrocos, Egito, Turquia, India…  O que influenciou a maneira como me alimento e cozinho. No final eu sempre vasculhava as mercearias e voltava pra casa cheia de produtos novos. Enquanto meu amor por comida crescia, meus horizontes iam se expandindo. Essas viagens tiveram um impacto enorme na maneira como vejo o mundo hoje: tanta diversidade fez com que me tornasse mais tolerante.

P- E a Palestina?

R- Em Paris, ouvia muito sobre o conflito Israelo-Palestino. Um dia comprei uma revista de antropologia onde tudo era explicado de maneira clara, com fotos, mapas, etc. Ao terminar a leitura pensei: “Será possível que essas coisas terríveis estejam acontecendo há tantos anos sem que ninguém faça nada pra que isso acabe?” Estava plantado o sentimento que me traria para cá. No final de (1997) 2007 participei de um workcamp em Belém e a injustiça que vi fez crescer minha vontade de ajudá-los. Foi quando tomei a decisão mais inusitada da minha vida: morar na Palestina.

P- Como teve acesso ao campo de refugiados?

R- Assim que vim morar aqui entrei em contato, graças à uma amiga, com um centro cultural no campo de refugiados de Aida, em Belém. Comecei a fazer trabalho voluntário e desde então atuo nos campos: trabalho com nutrição e higiene oral.

É difícil falar de direitos animais em um lugar onde nem os seres humanos têm seus direitos respeitados.

P- Que outros trabalhos desenvolve?

R- Faço ativismo gastronômico (meu blog) e tenho outras atividades voluntárias. Dirijo um projeto de apoio à mulheres com filhos deficientes (também em Aida, em Belém), escrevo artigos sobre a violação dos direitos humanos e a resistência popular não violenta na Palestina (publicados em jornais ou sites de informação), dou palestras sobre o tema sempre que vou ao Brasil e escrevo uma newsletter mensal com notícias da vida aqui, que envio às pessoas que assistiram às palestras e que querem continar recebendo informações sobre a Palestina. O movimento de resistência popular não-violenta é muito desenvolvido aqui e sempre que posso participo de ações não-violentas contra a ocupação militar israelense nos territórios palestinos. Sou ativista pelos direitos humanos e animais. Realizo ações concretas “no terreno”, mas também uso boa parte do meu tempo pra divulgar informações e sensibilizar as pessoas através dos artigos e das palestras. Tento unir a palavra, falada ou escrita, aos atos.

Abordo o assunto de maneiras diferentes, dependendo do contexto e do público, e assim levo a mensagem do veganismo de maneira inteligente e suave.

P- Como fala com as palestinas sobre veganismo?

R- As aulas de culinária vegana são unicamente para estrangeiros (os palestinos nunca se interessaram) e com eles meu único trabalho é convencer que cozinhar não é um bicho de sete cabeças: com um mínimo de esforço come-se bem em casa. Adotar o vegetarianismo não encanta muita gente aqui, imagine o que pensam do veganismo! A idéia que precisamos de carne, leite e ovos pra ficar saudável ainda é verdade absoluta. Todas os palestinos que encontrei, com exceção de um moça vegetariana, acreditam nisso. Embora meus amigos palestinos achem minha alimentação estranha, eles respeitam. Já aconteceu de um palestino me convidar pra jantar e dizer que, como eu não como carne, ele comprou um queijo fresco de ovelha só para mim. Quando a família é pobre e vejo que a compra significou muito para eles, como o queijo em consideração. Prefiro passar por cima do meu veganismo (só por algumas horas) do que passar por cima dos sentimentos da pessoa, mas explico que da próxima vez não precisa comprar queijo.

P- Como é o projeto com as mulheres no campo de refugiados?

Parte do meu projeto com as mães de crianças deficientes no campo de Aida é criar fontes de renda alternativas para as famílias. Organizo “home stay” nos campos e aulas de culinária palestina. Essas aulas são dadas pelas palestinas, na casa da coordenadora do projeto e eu ajudo fazendo a propaganda, levando os “alunos” estrangeiros para lá e traduzindo o que as cozinheiras falam. Escolhemos o cardápio juntas e sempre fazemos um prato vegetariano/vegano e um com carne; assim agradamos alunos vegs e onívoros. São aulas de culinária tradicional palestina, por isso temos que oferecer pratos tradicionais, logo com carne. Vivo pesquisando pratos tradicionais veganos, o que está me ajudando a descobrir um outro lado da culinária palestina. O objetivo desse projeto não é divulgar o veganismo, mas sempre acho uma maneira de acrescentar pratos veganos e falar um pouco sobre isso durante as aulas. Desde que estou aqui, dou palestras sobre nutrição para mulheres e organizo oficinas de higiene oral pra crianças. Principalmente nos campos de refugiados (onde a população é mais carente) a saúde da população está se deteriorando rapidamente por causa da mudança de alimentação. A dieta tradicional palestina, a “dieta mediterrânea”, é bastante saudável: gorduras boas, como azeite, azeitonas e oleaginosas, grãos, muita verdura e frutas e pouca proteína animal. O problema é que, como em todos os lugares do mundo, a população tende a adotar a “dieta ocidental”: estão consumindo cada vez mais açúcar, produtos industrializados e proteína animal. Explico que uma dieta mais natural, sem os produtos químicos presentes nos alimentos industrializados, e com mais vegetais é melhor pra saúde. Explico que ninguém precisa comer carne pra ficar forte, que leite não é tão saudável como imaginam e que cálcio também está presente nas plantas. No fundo estou pregando uma dieta vegana, mas não digo isso de maneira direta pois a reação seria negativa. Com argumentos de saúde e nutrição, a mensagem chega com mais facilidade. Organizo workshops pra mulheres que querem perder peso (a obesidade, como o diabetes, está virando epidemia) e mais uma vez uso essa oportunidade para defender o regime vegetariano, explicando que é a melhor maneira de perder peso e ganhar saúde. Ao falar de saúde bucal, algo também diretamente ligado à alimentação, aproveito mais uma vez para falar de comida saudável. Abordo o tema de maneiras diferentes, dependendo do contexto e do público, e assim levo a mensagem do veganismo de maneira inteligente e suave.

P- Quando se tornou vegana?

A transição aconteceu de maneira lenta. Na adolescência, comia pouca carne vermelha e, ao entrar na faculdade, parei de vez. A idéia de comer uma vaca, um dos meus animais preferidos, sempre me incomodou. Um tempo depois descobri como os frangos de abate eram criados e cheguei à conclusão que, além de extremamente cruel, aquilo devia fazer um mal imenso à saúde. Parei de comer frango. Depois pensei: “Se não como vaca nem frango porque acho errado matar esses animais, não faz sentido comer peixe”. Em 2007, me tornei vegetariana. Poucos meses depois assisti aos documentários “Meet your meat” e “Earthlings”: me tornar vegana pareceu ser a escolha certa. O que descobri me impressionou tanto que nunca mais teria a consciência tranquila se não adotasse imediatamente uma dieta livre de crueldade.

P- No seu blog (http://papacapimveg.wordpress.com), diz que se interessou por gastronomia para saber o que comer sendo vegana. Como foi o aprendizado?

R- Comecei a me interessar por comida quando criança. Fiz meu primeiro caderno de receita aos 11 anos. Cozinhar sempre foi uma fonte de prazer. O que mudou ao adotar o veganismo foi que decidir fazer dessa paixão por comida minha profissão. Não conhecia nenhum vegano e não tinha idéia formada sobre o que um vegano come. Mas logo entendi que não poderia mais comer os biscoitos, bolos e sorvetes que estava acostumada. Percebi que seria necessário reaprender a cozinhar e decidi encarar isso como um desafio. Algo me dizia que com um pouco de pesquisa e experiência seria possível ser vegana e comer bem.

P- Qual sua motivação ao criar um prato?

R- Gosto de usar ingredientes frescos, de qualidade e no seu estado natural. Tenho aversão a produtos industrializados e refinados e fujo de açúcar – para mim isso não é comida. Procuro sabores autêntios, vibrantes e honestos. Mais do que adaptar pratos “convencionais”, procuro criar receitas únicas, capazes de impressionar vegs e onívoros. Nhoque de abóbora com molho de sálvia me interessa muito mais do que um salpicão de soja, por exemplo. Claro que às vezes reproduzo um clássico não-vegano, mas trabalho para que ele tenha personalidade própria e seja excepcional, não uma pálida imitação do original. Meu objetivo é criar uma culinária vegana gourmet que seduza por ser deliciosa, variada e interessante.

P- Como é a alimentação vegana na Palestina e em Israel?

R- Não costumo ir muito a Israel, mas pude perceber que o movimento vegano tem vários representantes ativos, principalmente em Tel Aviv. Aqui na Palestina é algo que o pessoal desconhece. É difícil falar de direitos animais em um lugar onde nem os seres humanos têm seus direitos respeitados. Mas a culinária tradicional palestina e israelense tem opções naturalmente veganas, então não é difícil se alimentar sem produtos de origem animal nesses dois países. Há hummus, falafel, mutabal e os mais variados tipos de salada em todos os restaurantes.

P- E o veganismo na França?

R- Para mim esse é o lugar mais difícil para um vegano comer, pois os franceses colocam manteiga, creme e queijo em tudo. A França está um pouco atrasada em relação a outros paises europeus, como a Inglaterra, por exemplo. A “Vegan Society” foi fundade em 1944 e o trabalho que fazeram no Reino Unido é impressionante. É fácil encontrar produtos veganos nos supermercados (sempre escrevem no rótulo se o produto é vegano ou não) e há inúmeros restaurantes vegetarianos, veganos e, mesmo nos convencionais, tem sempre opções sem ingredientes de origem animal. Sonho com o dia em que teremos isso no Brasil.

Uso boa parte do meu tempo pra divulgar informações e sensibilizar as pessoas através dos artigos e das palestras. Tento unir a palavra, falada ou escrita, aos atos.

P- Comenta sobre veganismo em meios não-veganos?

R- Assim que me tornei vegana fazia discussos sobre veganismo e direitos animais com freqüência, mas percebi que a atitude não era muito inteligente. Muitas pessoas se sentem atacadas e reagem de maneira negativa quando falamos de veganismo sem que tenham nos pedido explicações. Adotei uma atitude mais discreta: não tenho problema em dizer que sou vegana, mas só me aprofundo no assunto se sentir que a pessoa está realmente interessada. Entre 2008 e 2009 organizei “jantares-conferências” em casa: convidava amigos onívoros e aproveitava para falar sobre as vantagens de uma dieta vegetariana e sobre o impacto da pecuária no meio ambiente. Meus convidados vinham pelo jantar, claro, mas acabavam recebendo um monte de informação entre uma garfada e outra. Saíam encantados com a comida e isso era essencial para que construíssem uma opinião positiva sobre o veganismo. Ao dar palestras sobre a situação na Palestina não toco no tema por achar totalmente fora de contexto: as pessoas ali presentes estão interessadas em saber da realidade do povo palestino. Eu me sentiria oportunista se usasse a ocasião para falar do meu trabalho com veganismo. Mas quando a situação permite, falo sobre essa parte do meu trabalho. Aliás, é a primeira coisa que digo quando me perguntam “O que você faz?”.

P- Você se encontrou no veganismo?

R- Meus valores morais guiam todas as escolhas que faço na vida. O veganismo é o reflexo desses valores na maneira como me alimento. Não uso couro e sempre que posso compro cosméticos veganos. Mas tenho que admitir que fora da cozinha ainda não sou 100% vegana. Ainda preciso progredir muito.

P- Existem resultados visíveis da sua divulgação do veganismo?

R- Eu insipirei algumas pessoas a se tornaram veganas e isso para mim é uma enorme vitória.

P- Qual o retorno do seu blog?

R- O Papacapim incentivou alguns vegetarianos a adotar o veganismo, ou a incluir mais pratos veganos no seu dia a dia. Meu post mais popular se chama “Dicas pra se tornar vegano” e muitas pessoas me escrevem dizendo que minha maneira de abordar o veganismo é acessível e positiva.

P- Por que optou por escrever em português no blog?

R- Eu me tornei leitora assídua de blogs de culinária desde que decidi trabalhar com comida. Como escolhi ser autoditata, os blogs, além dos livros, são um excelente material de estudo. Vi que a maioria dos blogs era em Inglês e senti que o público brasileiro estava carente de conteúdo vegano em português. Hoje existem dezenas de blogs veganos, mas na maioria falta originalidade, abertura para comidas típicas, falta aquele toque especial… Sei que essas receitas (cachorro quente de pts, bolo de chocolate, brigadeiro, empadão, maionese de soja, etc) são úteis para um estudante que quer se tornar vegano, ou alguém que não tem muita habilidade na cozinha, mas prefiro uma culinária mais complexa, mais gourmet. Quis fazer o Papacapim nesse estilo, com receitas dos pratos que mais gosto, uma prosa interessante e fotos bonitas. Um blog gostoso de ver, ler e comer. Escrever é das minhas maiores paixões então sempre procuro outros assuntos, quase sempre relacionados com comida, para ter desculpa pra escrever mais. Acredito que expor um pouco minha vida ajuda a mostrar que veganos têm uma vida normal, tão variada, excitante ou banal quanto a de um onívoro.

P- Como é ter um casamento “homoafetivo” na Palestina?

R- Antes de tudo gostaria de resolver um problema semântico: não sabia que tinha um casamento “homoafetivo”. Não conhecia esse termo, mas ele não me agrada. Nunca pensei, nem nunca ninguém diria, que meus pais têm um casamento “heteroafetivo”. Pra mim só há dois tipos de casamento: arranjado ou por amor. O meu casamento, assim como o dos meus pais, é do segundo tipo. “Homoafetivo” talvez seja “politicamente correto”, e tenho certeza que você não quis me ofender, mas prefiro usar a palavra “casamento” sozinha, como qualquer casal heterossexual faria. Resolvido o problema semântico vamos à resposta: na Palestina homossexualismo é tema tabu. Claro que existe, como em qualquer lugar do mundo, mas é tudo muito escondido, reprimido. Só nossos amigos palestinos mais íntimos sabem que somos um casal. Foi uma escolha que fizemos. Caso todos soubessem, isso teria um impacto negativo no nosso trabalho, principalmente nos projetos nos campos de refugiados. O fato de não poder viver minha vida de maneira aberta não me incomoda tanto porque sei que estou aqui por um período determinado e a maioria dos nossos amigos é estrangeira. Eles vêm muito aqui em casa e vamos muito na casa deles, então nossa vida aqui não é tão sufocante. As vezes até esqueço que tem uma sociedade tão conservadora lá fora…

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