Conheça o padre que fala sobre compaixão a todos os animais em uma pequena paróquia gaúcha

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Conheça o padre que fala sobre compaixão a todos os animais em uma pequena paróquia gaúcha

Entrevista exclusiva.


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Fica em Araricá, cidade a 70 km de Porto Alegre e que tem 4.864 habitantes segundo o último censo do IBGE, a paróquia Nossa Senhora da Conceição. A paróquia tem 128 anos de história e há 3 anos tem o padre Paulo César Rosa da Conceição à frente de tudo.

Conhecido como padre César Rosa (Facebook), ele vem promovendo uma pequena e importante revolução em sua comunidade. Em paralelo às funções atribuídas ao seu cargo na Igreja Católica, César não se esquiva de falar sobre temas muitas vezes polêmicos para o meio religioso.

Ovolactovegetariano desde 2009 e caminhando para o veganismo, ele vem promovendo grandes jantares sem carne para os frequentadores de sua paróquia. No primeiro ano, uma pizzada. No segundo ano, foi um festival de pastéis. Há alguns dias, foi um banquete sem carne com mais de 50 pratos. Para o ano que vem, o plano já está traçado: será um grande jantar vegano, sem nenhum ingrediente de origem animal.

Em entrevista ao portal Vista-se nesta quinta-feira (12), padre César Rosa falou sobre suas motivações, sobre como os frequentadores da paróquia reagem e também sobre o que os seus superiores na hierarquia da Igreja pensam a respeito de um padre que promove a compaixão aos animais.

César contou que decidiu parar de comer animais por compaixão a eles.

“Primeiramente, por uma questão ética, de respeito a todo tipo de vida, de saber que não posso fazer utilitarismo com as demais criaturas, isto encontro na Bíblia em Romanos 8, 20. Depois vem a questão religiosa. Eu tenho convicção absoluta que a Bíblia ensina o veganismo, encontramos muitas passagens a este respeito, deixo duas como exemplo, Gênesis 1,29 e Provérbios 15, 17. Outro fator é a saúde. Para mim comer carne é comer cadáver, produto em decomposição, por isto o carnívoro tem hálito forte. Sei que a carne apodrece dentro de nosso organismo, demora a ser digerida e vira carniça no ventre de quem come. Ainda mais da maneira que se produz carne hoje em dia, com muitos antibióticos, anabolizantes, conservantes, aromatizantes etc. Por fim, por amar todos os animais, ver neles a presença de Deus, ser contra todo tipo de maldade (Daniel 3,79-81). Falamos muito na Igreja sobre misericórdia. Mas a misericórdia só entre as pessoas? E as outras criaturas de Deus? Eu quero misericórdia, mas não a exerço com as demais criaturas dos quais sou guardião? Existe misericórdia sem compaixão? Sempre digo: ‘Eu não como outro animal, pois eu também sou um’.” – disse César.

“Eu nunca fui um carnívoro mesmo, comia por que somos educados e ‘forçados’ a comer desde pequeno. Mas depois que fui criando consciência do que está por trás da cultura de morte da indústria da carne, foi muito fácil deixar de comer por completo.” – completou o padre.

Ele também entende o mal atrás da produção de ovos e laticínios, mas disse que ainda não conseguiu abolir completamente esses itens de sua alimentação. Segundo ele, a dificuldade aumenta quando está em visita às casas das pessoas da comunidade.

Perguntamos também se ele fala sobre veganismo durante as missas.

“Falar de veganismo numa cultura em que se criam animais em casa para comer e onde tudo é motivo para churrascos é um pouco complicado. Porém, em muitas ocasiões, as leituras da Missa e partes das orações tocam de certa maneira na questão ética com as demais criaturas. Aí sim eu prego que devemos evoluir, que devemos cuidar da natureza, da Criação dos demais seres.” – afirmou César.

“Quando vem a Carta aos Romanos, capítulo 8, 20s, sempre digo que fico em crise (risos), pois ali vemos claramente que Deus quer libertar toda a criação do pecado e da maldade do mundo. Olha só este trecho da IV Prece Eucarística da Missa, que praticamente não é usada: ‘E a todos nós, vossos filhos e filhas, concedei, ó Pai de bondade, que, com a virgem Maria, mãe de Deus, com os apóstolos e todos os santos, possamos alcançar a herança eterna no vosso reino, onde, com todas as criaturas, libertas da corrupção do pecado e da morte [destaque dado pelo próprio padre), vos glorificaremos por Cristo, Senhor nosso’.” – disse.

Padre César Rosa lembrou também de um episódio na missa do último Natal, no qual ele sugeriu um questionamento bem direto.

“Por que será que nesta noite os cristãos vão comer o presépio? Se Jesus teve que nascer entre animais para não ser morto pelos homens? Por que agimos como pagãos, comendo perus? O que tem a ver isso com o Natal? No dia do nascimento do Senhor da vida, acabamos celebrando a cultura da morte. Onde está na Bíblia que José e Maria fizeram churrasco quando Jesus nasceu?” – provocou, positivamente, o padre.

Sobre como seus superiores na hierarquia da Igreja enxergam toda essa movimentação, César disse o seguinte:

“Olha, posso enquadrar esta questão em três realidades por parte de meus superiores e colegas: respeito, deboche e preconceito. Infelizmente, o respeito vem de poucos (risos). O fato é que alguns que conviveram comigo, quando me vêem, me agradecem: ‘Olha padre, sabe que a convivência com o senhor me fez muito bem? Comecei a comer mais verduras, deixei de comer tanta carne. Hoje, me sinto melhor, mais disposto, emagreci, Valeu mesmo.’ É muito recompensador ouvir testemunhos desses, embora não tenham se tornado veganos ou vegetarianos. Outros debocham mesmo e levo na brincadeira. Um dia falaram numa Missa onde estavam todos os padres: ‘Depois da Missa será oferecido um churrasco para vocês e para o padre Paulo César reservamos um pasto.’ Em nada isto me atinge e também ninguém achou graça. Perguntam se não tenho misericórdia da cenoura e da alface, essas baboseiras sem graça. Outros procuram textos na Bíblia onde diz que matavam cordeiros e cabritos para comer, que Jesus comia peixe. Parece que não tiveram Teologia (risos). Particularmente, não tenho participado e aceito para ir em eventos católicos que culminem com exploração animal. Eu não me preocupo, pois encontro nas Sagradas Escrituras, nos documentos da Igreja, no exemplo de santos, o suporte para exercer a compaixão e a misericórdia para com todas as criaturas.” – contou o padre.

Perguntamos também sobre como é a reação das pessoas que frequentam a paróquia. O padre explicou que em um primeiro momento as pessoas acham estranho ouvir na missa sobre compaixão aos animais, mas, aos poucos, os fiéis vão entendendo e até aderindo.

“Sempre que chego numa comunidade já aviso que não me convidem para churrasco (risos). Posso dizer que em minha paróquia alguns já não comem mais carne e outros diminuíram drasticamente o seu consumo.” – comemorou.

No jantar realizado há alguns dias, César achou que realizaria o seu objetivo de um grande banquete vegano. Mas houve um problema de comunicação com o restaurante responsável e, na hora, descobriu-se que havia alguns pratos com ovos e leite no cardápio.

“Meu objetivo agora é realizar um vegano de fato, espero que Deus me abençoe com mais esta graça e que Ele dê muita força, ânimo e coragem para todos aqueles que lutam pelos animais.” – finalizou o padre.

Uma outra curiosidade é que o padre César Rosa tem conseguido amigos veganos pelas redes sociais por conta de sua postura progressista. Muitos veganos, inclusive, compareceram ao jantar promovido pela Igreja para arrecadação de fundos para uma reforma na centenária paróquia.

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