Leia o depoimento emocionado de uma ativista sobre os porcos que não puderam ser resgatados

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Leia o depoimento emocionado de uma ativista sobre os porcos que não puderam ser resgatados

Na porta do inferno.


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Karina Mascaro é uma voluntária e ativista vegana que atua na capital paulistana. Ela é mãe da pequena ativista Amélie, sobre a qual falamos em 2012 (relembre aqui). Na quinta-feira (27), Karina estava entre as dezenas de ativistas que foram para a porta do Frigorífico Rajá Ltda protestar para que os 22 porcos que foram levados para lá após o acidente no Rodoanel fossem libertados.

Quando se manifestavam pela liberdade dos 22 porcos, ativistas bloquearam a entrada de um caminhão carregado com mais 100 porcos para averiguação de documentos. Enquanto a polícia verificava se estava tudo dentro da lei, ativistas tentavam dar água para os animais e o clima de comoção era grande.

Em uma escada emprestada por um morador local, Karina fotografava a situação dos animais no caminhão para ter material e fazer campanhas de conscientização. Ela foi pega de surpresa, no entanto, por um dos porcos que parecia pedir socorro de uma maneira muito especial. Em sua página no Facebook (veja aqui), a ativista relatou o que viveu, depoimento que você confere também abaixo.

“Esse menino que aparece na foto e eu nos conhecemos ontem em frente ao matadouro Rajá em Carapicuíba, São Paulo. Ele estava dentro do caminhão e havia percorrido um longo caminho em condições cruéis rumo ao fim de sua vida junto com os demais sentenciados. Eu havia, junto com outros companheiros da ação, dado a volta no caminhão inteiro, dando água para todos que estavam ao nosso alcance.

Corríamos contra o tempo a fim de atender todos os animais possíveis pois estavam muito debilitados, famintos, sedentos e apavorados. Em breves intervalos pedia para os demais ativistas manterem a calma e a comunicação não violenta, pois apesar de ser revoltante a situação, o nosso foco era libertar aqueles inocentes e o sucesso ainda era incerto. Revidar os civis provocativos não adiantaria, pois não estavam abertos a reflexão naquele momento e o maior culpado disso é o sistema e quem lucra com a exploração. Precisávamos mandar o máximo de energia positiva de amor para que eles conseguissem se acalmar diante de todo aquele sofrimento.

Foi quando em uma das penúltimas baias me deparei com ele que de longe me avistou. Eu não oferecia mais água naquele momento, apenas registrava toda a crueldade com minha câmera e, de alguma forma, tentava me conectar com eles com toda a compaixão que estava desperta em meu ser. Ele estava abarrotado entre os seus outros companheiros, lá longe. Nós nos olhamos por um momento e ele se esforçou para se aproximar, passando por cima de alguns dos outros.

Não acreditei que ele realmente estivesse fazendo isso de forma consciente, pensei que ele estivesse desesperado por água, então pedi água para o ativista que estava com as garrafas. E ele, lutando para se aproximar em um espaço minúsculo onde estava enclausurado com mais 10 de sua espécie, chegou o mais próximo que conseguiu de mim. Quando eu ofereci a água, ele recusou e continuou a me olhar profundamente.

Eu me emocionei e pedi perdão para ele por ele estar naquela condição e disse que tudo iria ficar bem. Ele continuou a me olhar e se comunicar. Foi aí que veio a notícia que o caminhão teria que entrar e descarregar para que os 22 prometidos fossem entregues, mas ali tinham cerca de 100 animais.

Tomei consciência de que o pesadelo não havia acabado. Rapidamente, o motorista ligou o motor e os portões foram abertos. Eu não consegui conter as lágrimas, havia chegado o fim. Acompanhei o caminhão falando com ele e com todos os outros pedindo perdão, me despedindo, agradecendo e dizendo para eles que eles eram muito especiais e que eu os amava. Até que os portões se fecharam.

De longe nós podíamos ouvir, e avistar minutos depois, eles tomando choques para facilitar a descarga. Em seguida, ficamos sabendo que, como procedimento, foram encaminhados para banho e então mortos da forma mais desumana e iníqua possível.

E aquele, de focinho manchado, dono daquele olhar que durou minutos e me transformou em uma outra pessoa, neste momento não vive mais. Provavelmente ele, com seu olhar de criança, junto com todos os outros olhares de piedade que presenciei ontem, estejam nos próximos dias embalados em um prateleira de supermercados como se fossem nada.

Ontem mais uma vez eu presenciei cenas de um holocausto, um holocausto que nós fingimos não ver e financiamos. Como podemos aceitar tamanha crueldade com a vida de indefesos? Como tratamos os corpos daqueles seres apenas como presunto, pertences de feijoada e embutidos? Da mesma forma que um dia os judeus eram considerados inferiores e dignos de morte.

A negação do Holocausto é tão insana quanto o próprio acontecimento diário dele. Vai em paz menino e tenha certeza de que você foi muito amado e que jamais será esquecido. Enfim você está livre!” – Karina Mascaro.


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